domingo, 28 de fevereiro de 2016

Português II - Resumo da Aula 2: Frase, Oração e Período

Professores Ivo da Costa do Rosário
Mariangela Rios de Oliveira

     1) Frase: definição

Autor
Conceito
Melo (2001, p. 8)
Palavra ou conjunto de palavras que formam sentido completo.
Luft (2002, p. 11)
A menor unidade autônoma da comunicação. Autonomia no plano significativo − uma intenção comunicativa definida − e no plano significante − uma linha completa de entoação
Cunha e Cintra (2001, p. 19)
É um enunciado de sentido completo, a unidade mínima de comunicação. A frase é sempre acompanhada de uma melodia, de uma entoação
Rocha Lima (1999, p. 232)
É uma unidade verbal com sentido completo e caracterizada por entoação típica: um todo significativo, por intermédio do qual o homem exprime seu pensamento e/ou sentimento. Pode ser brevíssima, construída às vezes por uma só palavra, ou longa e acidentada, englobando vários e complexos elementos
Kury (2003, p. 13)
É a unidade de comunicação entre falante e ouvinte, entre escritor e leitor


Assim, consideradas suas distinções e de acordo com as definições apresentadas inicialmente, classificamos como frases da língua tanto "Fogo!"; quanto "O prédio está em chamas!".


     2) Frase: Classificação Simples e Usual 

É encontrada basicamente em todos os manuais de língua portuguesa e que divide os padrões referidos em três tipos:

a) Interjeição: considerada um “tipo rudimentar de frase” (CARONE, 1991, p. 47), é vista como constituinte dotado de sentido, marcada por entoação e fortemente vinculada ao contexto situacional em que é produzida. São exemplos, entre outras, desse tipo frasal: Epa! Ui! e Hein?.

b) Frase nominal: é a frase sem verbo, que tem como núcleo um nome de natureza substantiva, adjetiva ou adverbial. São exemplos de frases nominais expressões como: Que beleza! Perto dos olhos, longe do coração. Casa de ferreiro, espeto de pau.

c) Frase verbal: é a frase constituída de verbo, também chamada oração. Trata-se do tipo frasal mais frequente na língua portuguesa. Incluem-se nesse tipo de frase, que será tratado com mais detalhes a seguir, enunciados como: Você está uma beleza! Que tipo de espeto o ferreiro usa em sua casa?

Um traço característico da frase, que concorre para a totalidade de sentido que declaramos, é a marcação entoacional que a acompanha, tanto na modalidade escrita quanto na modalidade falada. Assim, no texto escrito, devemos regularmente iniciar a frase com letra maiúscula e finalizar com ponto. Na modalidade falada, a pausa maior ou menor costuma marcar o início e o término da frase; essa pausa da fala corresponderia, na escrita, à vírgula (pausa menor) e ao ponto (pausa maior).


    3) Frase: Classificação de Rocha Lima (1999, p. 233) 

a) Declarativa: a frase mais comum, usada para anunciarmos um fato, darmos uma notícia, enfim, fazermos asserções. No texto escrito, é encerrada com ponto final, como em:

(1) Ele conhece o caminho do sucesso.

(2) O trabalho está perfeito.

b) Interrogativa: utilizada para formularmos perguntas. É finalizada no texto escrito pelo ponto de interrogação:

(3) Ele conhece o caminho do sucesso?
(interrogativa fechada, resposta = sim ou não)

(4) O que é perfeito?
(interrogativa aberta, resposta incide sobre um dos termos da oração, no caso o pronome “o que”) 

c) Imperativa: tem a função de chamar a atenção, de convocar, de incitar alguém a tomar ou não uma atitude. Em geral, usa-se na escrita com ponto de exclamação: 

(5) Aprende o caminho! 

(6) Seja perfeito!

d) Exclamativa: expressa uma emoção ou condição interior (alegria, raiva, medo, repulsa, etc.). Como a frase imperativa, também costuma vir finalizada, na modalidade escrita, por ponto de exclamação: 

(7) Que sucesso! 

(8) Quanta perfeição!

e) Indicativa: sintetiza um pensamento, como se fosse uma declaração padrão, um ritual da comunidade linguística para certas ocasiões. Por estar muito vinculada ao contexto de sua produção, costuma ter pequena extensão: 

(9) Boa sorte! (para quem vai fazer uma prova) 

(10) Tudo bem? (saudação ao passar por um conhecido)


Obs.: Ainda de acordo com Rocha Lima (1999, p. 234), as frases do português podem se classificar também em afirmativas ou negativas. Assim, por exemplo, em relação às frases declarativas afirmativas (1) e (2), teríamos, respectivamente, as correspondentes negativas:

(11) Ele não conhece o caminho do sucesso.

(12) O trabalho não está perfeito.


    4) Estrutura Oracional 

De acordo com Azeredo (1995, p. 30), a oração “apresenta normalmente uma estrutura bimembre (...) centrada em um verbo com o qual se faz uma declaração (...) sobre um dado tema”. O caráter dual da oração também é referido por Rocha Lima (1999, p. 234), que a define como a frase “que se biparte normalmente em sujeito e predicado”. 

Ambos os autores ressaltam o sujeito e o predicado, ou o tema e a declaração, como os componentes básicos da unidade a que chamamos oração. A ressalva, por intermédio do advérbio normalmente, se dá por conta da possibilidade de haver oração sem sujeito, mas não sem predicado.

Não há unanimidade entre os gramáticos e estudiosos sobre os níveis hierárquicos da oração. Alguns, como Azeredo (1995), consideram que o sintagma verbal (SV) é o grande constituinte oracional, ficando o sujeito (SN) num plano mais baixo; outros, como Cunha e Cintra (2001) e Kury (2003), veem a oração como uma unidade de nível superior, formada por duas estruturas de mesma hierarquia – SN e SV - dentro da organização oracional padrão: a sequência sujeito (ou tema) + predicado (ou declaração). 

Ou seja, a estrutura oracional do português é constituída com maior frequência por frases verbais declarativas e afirmativas na ordem sujeito (ou tema) + predicado (ou declaração). 


     5) Conceito e Função do Período 

Segundo Kury (2003, p. 15), “PERÍODO é o enunciado, de sentido pleno, constituído de uma ou mais orações, e terminado por uma pausa bem definida”, sendo que na modalidade escrita, essa pausa pode ser codificada por variadas marcações, como ponto (final, de exclamação, de interrogação), reticências, entre outras.

Conforme Cunha e Cintra (2001, p. 121), período se define como “a frase organizada em oração ou orações”. 

Em Azeredo (1995, p. 33), encontra-se que o período “é a maior unidade da estrutura gramatical”, aquela de maior extensão e complexidade a que se pode chegar no nível sintático estrito, pois é dentro dessa entidade que identificamos e classificamos os sintagmas da língua portuguesa (análise sintática).

O período formado por uma só oração (que recebe o rótulo de absoluta) é denominado simples, enquanto o composto pode ser constituído por duas ou mais orações. Quando o período é classificado como simples, a oração que o constitui. 

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 2: Herdando uma biblioteca. Parte I: O cânone literário ao longo do século XIX

Professores Igor Graciano, André Dias e Ilma Rebello

     1) A Formação do Cânone Literário Brasileiro 

O primeiro impulso que caracterizou o Romantismo, sobretudo na sua fase inicial, independente se na prosa romanesca, no teatro ou na poesia, foi o de procurar consolidar uma identidade nacional brasileira. 

Para tanto, os autores do período, através de suas obras, buscaram representar as cenas urbanas e as diversas paisagens regionais de norte a sul do país, e elegeram o índio como a síntese do herói fundador, o legítimo filho da terra. 

O trabalho crítico de construção desse cânone se pautou desde então pelo critério de nacionalidade, pois se tratava de conceber a literatura que se originava e deveria expressar a nação recém-nascida. 

A formação do cânone literário seguiu, de bem perto, o próprio desenvolvimento de nossas relações de dependência e de autonomia com vistas às fontes metropolitanas” (BARBOSA, 1996, p. 23). 

Através de uma perspectiva dialética, revelava a natureza partida de nossa produção intelectual daquele momento, que buscava compreender e expressar o país, porém tinha nas referências estrangeiras um indiscutível paradigma.


     2) As Contribuições Estrangeiras e Nacionais para a Formação do Cânone Literário Brasileiro 

O grande tema que movia os escritores do período romântico girava em torno da tarefa de construção da identidade da nação recém-independente de Portugal. 

Autores como Gonçalves Dias, na poesia, e José de Alencar, na prosa – sobretudo na fase indianista de suas produções – ajudaram a forjar a imagem do índio como o primeiro grande representante do passado histórico brasileiro e protótipo do herói nacional, e buscaram também descrever as paisagens pitorescas do país, como uma estratégia de afirmação das cores locais, com urgência ufanista, pois era preciso superar – pelo menos no plano literário e simbólico – as dificuldades sociais e políticas herdadas do colonialismo.

Alguns dilemas que marcaram a primeira geração romântica, com problemas graves, oriundos da força do poder agrário que era sustentado pela tríade: latifúndio, escravismo e economia de exportação: como o país recém-independente ainda vivia em meio a essas questões inconciliáveis, coube aos escritores românticos a busca pela harmonização, no plano do discurso, da situação de crise social e política vivenciada pela pátria. 

Um país livre sustentado por um regime escravocrata era um dilema quase insolúvel. Nesse sentido, o silêncio em torno da contribuição da cultura negra tanto para a literatura quanto para a formação da nacionalidade brasileira do período é compreensível – não nos esqueçamos que a fuga da realidade foi uma das características marcantes do estilo romântico.

O crítico Roberto Acízelo de Souza, por exemplo, aponta o período que vai do ano de 1805 até o de 1888 como a época da formação do campo da História da Literatura Brasileira. Para chegar a tais datas, o estudioso elegeu – sem, no entanto, assumir posição dogmática – como marco referencial os seguintes episódios: a menção dos nomes de Antônio José da Silva e Cláudio Manuel da Costa, escritores nascidos no Brasil, na obra do alemão Friedrich Bouterwek e a publicação de “História da literatura brasileira, de Sílvio Romero, trabalho que, pela abrangência e fundamentação conceitual, atesta a consolidação da disciplina” (SOUZA, 2007, p. 29). 


     3) A Contribuição dos Autores Estrangeiros 

Segundo Roberto Acízelo de Souza, as práticas historiográficas estrangeiras podem ser classificadas em cinco categorias:
  • A primeira categoria envolve obras, que apesar de, formalmente, pertencerem ao corpo de estudos dedicados à Literatura Portuguesa, se ocupam de autores brasileiros. São eles: o volume Geschichte der Portugiesischen Poesie und Beredsamkeit, (1808) de Friedrich Bouterwek, as obras: De La Littérature Du Midi de L´Europe (1813), do suíço Simonde de Sismondi; Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa – introdução da antologia Parnaso lusitano (1826), do português João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett. 
  • A segunda categoria, apesar de desenvolver de maneira mais profunda a História da Literatura Brasileira e de lhe atribuir um tratamento mais independente, ainda vai enquadrá-la como um apêndice da História da Literatura Portuguesa. O trabalho mais expressivo no gênero é o Résumé de L´Histoire Littéraire du Portugual, Suivi du Résumé de L´Histoire Littéraire du Brésil (1826), de Ferdinand Denis. 
  • A terceira categoria colocou, pela primeira vez, a Literatura Brasileira como objeto exclusivo de estudos de críticos estrangeiros. Destacam-se neste grupo dois trabalhos: o ensaio “De La Poesia Brasileña” (1855), do espanhol Juan Valera, publicado na Revista Espanhola de Ambos os Mundos, e a obra de Eduardo Perié publicada em Buenos Aires – porém, editada em português –, intitulada: A Literatura Brasileira nos tempos coloniais: do século XVI ao começo do XIX – esboço histórico seguido de uma bibliografia e trechos dos poetas e prosadores daquele período que fundaram no brasil a cultura de língua portuguesa (1885). 
  • A quarta categoria abrange estudos de caráter marcadamente mais crítico e menos historiográfico. Mesmo assim, tais trabalhos devem ser encarados como relevantes contribuições estrangeiras, em função de abordarem em seu escopo a Literatura Brasileira. Destacam-se nessa categoria os seguintes estudos: do alemão C. Schlichthorst, o capítulo do livro Rio de Janeiro wie es ist (1829); o artigo do português Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, intitulado “Futuro literário de Portugal e do Brasil”, publicado na Revista Universal Lisboense (1847-1848) e, do também português José da Gama e Castro, uma carta-resposta a um leitor do Jornal do Commercio, em forma de ensaio (1842). 
  • A quinta categoria é formada pelo primeiro estudo exclusivamente dedicado à História da Literatura Brasileira. Le Brésil Littéraire: Histoire de La Litterature Brésilienne (1863), do austríaco Ferdinand Wolf. Tanto Wolf quanto o francês Ferdinand Denis tiveram um papel relevante na formação do pensamento crítico nacional do período. Ambos procuravam incentivar, através de suas obras, os estudiosos brasileiros a adotarem uma perspectiva nacionalista na produção crítica e literária da época. Tornou-se importante referência didática, pela circunstância de sua obra – escrita originalmente em alemão, depois traduzida para o francês e publicada em Berlim sob os auspícios do imperador Pedro II – figurar entre os compêndios adotados na escola brasileira do século XIX (SOUZA, 2007, p. 32). 

     4) A Contribuição dos Autores Nacionais 

São, também, cinco categorias:

     a) Antologias de poesias (também chamadas de parnasos ou florilégios), e histórias literárias propriamente ditas, chamadas à época de “cursos” e “resumos” (preocupadas fundamentalmente com a exposição de um painel de cada período literário): 
  • o trabalho pioneiro foi o Parnaso Brasileiro (1829-1832), de Januário da Cunha Barbosa; 
  • obras mais sólidas, em torno de prólogos amplos e informativos : Parnaso brasileiro (1843-1848), de João Manuel Pereira da Silva, o Mosaico poético (1844), de Joaquim Norberto de Sousa Silva e Emílio Adet e o Florilégio da poesia brasileira (1850- 1853), de Francisco Adolfo Varnhagen; 
  • sem prólogos de valor historiográfico, contando apenas com informações gerais sobre os autores selecionados – o caso de Meandro poético (1864), de Joaquim Norberto de Sousa Silva; o Curso de Literatura Brasileira (1870) (apesar do título, configurava-se como uma antologia) e um terceiro Parnaso brasileiro (1885), de Alexandre José de Melo Morais Filho. 

     b) Ensaios (declarações de princípios sobre a ideia de Literatura Brasileira), efetuou tanto revisões do passado literário quanto considerações sobre seu presente, bem como prognósticos para o futuro da Literatura nacional. Os ensaios produzidos durante o período romântico obedeceram a princípios nacionalistas, que exigiam a afirmação das características locais como um mecanismo de superação do período colonial, tão caro ao país: 
  • Domingos José Gonçalves de Magalhães, com seu “Ensaio sobre a História da Literatura Brasileira” (1836) – publicado originalmente em Paris, na Revista Niterói, com o objetivo de divulgar o Romantismo no Brasil –, figura como o principal articulador da modalidade; 
  • Santiago Nunes Ribeiro, que deixou como legado dois ensaios, intitulados: “Da nacionalidade da Literatura Brasileira” (1843). Ambos os trabalhos foram publicados na revista Minerva Brasiliense, periódico carioca dedicado à difusão do ideário romântico no Brasil. 
   
   c) Galerias (coleções de biografias), concentrou seus esforços na tarefa de organizar coleções de biografias de autores ilustres: 
  • João Manuel Pereira da Silva com seu Plutarco brasileiro (1847). A obra sofreu alterações significativas, vindo a ser reeditada mais tarde sob o título de Varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais (1856 e 1868); 
  • Biografias de alguns poetas e homens ilustres da província de Pernambuco (1856-1858); 
  • Joaquim Norberto de Sousa Silva, brasileiras célebres (1862); 
  • Antônio Henriques Leal, Panteon maranhense (1873-1875). 

   d) Edições de textos (em geral, acompanhadas por breves biografias, críticas e notas explicativas): 
  • Francisco Adolfo Varnhagen se empenhou nas edições dos poemas setecentistas, “O Uraguai, (1769), de José Basílio da Gama”, e Caramuru (1781), de José de Santa Rita Durão, ambos reunidos no livro Épicos brasileiros (1845), sendo responsável também pelas edições de autores do período colonial, tais como: Bento Teixeira (poesia), Vicente do Salvador, Ambrósio Fernandes Brandão e Gabriel Soares de Sousa (prosa); 
  • Joaquim Norberto de Sousa dedicou-se às edições de poetas do século XVIII: Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1864), Alvarenga Peixoto (1865), Gonçalves Dias (1870), Álvares de Azevedo (1873), Laurindo Rabelo (1876) e Casimiro de Abreu (1877); 
  • Alfredo do Vale Cabral foi o responsável pela edição do primeiro volume das obras de Gregório de Matos, dedicado às sátiras (1882). 

   e) Histórias literárias, também chamadas à época de “cursos” e “resumos” (preocupadas fundamentalmente com a exposição de um painel de cada período literário), foram idealizadas com a finalidade de servirem de material didático para as instituições de ensino: 
  • Curso elementar de literatura nacional (1862), de Caetano Fernandes Pinheiro, trata da Literatura Brasileira e da Portuguesa, é que, segundo [o autor], só haveria Literatura Brasileira distinta da Portuguesa a partir da Independência e do Romantismo. (SOUZA, 2007, p. 36); 
  • Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira (1866-1873), de Francisco Sotero dos Reis, dedica parte do quarto e quinto volumes ao exame da Literatura nacional. Ele inicia suas análises a partir dos poetas do século XVIII, a quem classificava de precursores e considerava apenas os escritores da fase pós-Independência como autores efetivamente brasileiros.

Teoria da Literatura I - Resumo da Aula 2: Construção do Conceito de literatura

Professor José Luís Jobim


     1) Introdução 

O senso comum pode significar um repertório de ideias, valores e opiniões vistas como verdadeiras pela comunidade em que se enraízam e que serviriam de base para a vida desta comunidade.

Quando hoje usamos o termo literatura, há um referente para este termo em nosso meio social. 

Só se pode dizer algo sobre literatura se, na comunidade em que nos encontramos, existe um referente para este termo; se em nossa sociedade existe concretamente algo que corresponde ao termo literatura.


    2) O Julgamento e seu Contexto 

Inicialmente, quando elaboramos julgamentos sobre um “objeto”, é necessário assinalar que:



1. De alguma forma pagamos tributo ao que se pensa deste “objeto”, no momento em que elaboramos nosso julgamento;

2. O que se pensa deste “objeto”, no momento em que elaboramos nosso julgamento, também tem relação com momentos históricos anteriores;

3. Os procedimentos tradicionalmente adotados de abordagem do pensamento vigente deste “objeto” interferem nos julgamentos possíveis que são elaborados, a partir destes procedimentos. 

Os procedimentos adotados por analistas anteriores constituem um repertório prévio de abordagem da obra, servem como referência para a análise de agora e ficam como referência para procedimentos posteriores, que podem ser desenvolvidos a partir de, conforme ou mesmo contra estes procedimentos de antes – mas, em todos os casos, tendo-os como referência. Mesmo quando eu declaro que discordo do procedimento de um crítico anterior e do julgamento baseado neste procedimento, ainda assim estou utilizando o trabalho deste crítico como referência. Ou seja, para negar a validade de um procedimento crítico anterior, ou questionar os julgamentos derivados deste procedimento, preciso levar em consideração tanto o procedimento quanto os julgamentos anteriores, pois é a partir deles que poderei construir minha argumentação contra eles.

Podemos dizer que, se nosso esforço de investigação se dirige à literatura, para enunciar o que ela é ou como ela é, isto implica que de alguma forma ela já seja previamente dada, previamente existente, pois a investigação presume um “objeto” sobre o qual ela ocorrerá. 

Husserl diria que o “objeto” está lá, com um caráter familiar: ele é apreendido como objeto de um tipo já conhecido de alguma maneira, ainda que seja de uma generalidade vaga. 


     4) O Senso Comum e a Construção do Conceito 

Havia uma ideia de literatura presente em nossa sociedade. Isto significa dizer que no senso comum já existia um horizonte anterior ao conceito, um horizonte com o qual teremos de dialogar.

Quando pensamos sobre literatura hoje, pagamos um tributo ao que já se pensou sobre literatura antes, e que está presente como referência para o nosso pensamento atual, ainda que não saibamos conscientemente.

Portanto, podemos dizer que este horizonte, constituído pelo que já se pensou sobre literatura antes, e que está presente como referência para o nosso pensamento atual, estabelece uma certa indução, um certo direcionamento para o que se vai pensar agora e depois. 

Por isso, Husserl afirma que um objeto, qualquer que seja, não é nada que seja isolado e separado, mas é sempre já um objeto situado em um horizonte de familiaridade e de pré-conhecimento típicos. Ou seja, só podemos conhecer um objeto qualquer a partir do conhecimento de outros objetos que nos são familiares, conhecimento que pode, inclusive, levar-nos à conclusão de que este é um objeto “novo”, diferente dos que conhecemos e que são parecidos com ele. 

Tanto nosso julgamento sobre o passado – determinando o que ele é – quanto nossas projeções para o futuro – imaginando o que ele poderá vir a ser – têm as marcas deste horizonte.


     5) Sentidos de Longa e de Curta Duração: a Perspectiva Histórica 

Vamos considerar como “longa duração” períodos muito mais longos do que a própria vida singular de um ser humano: acima de 600 anos. Por outro lado, por “curta duração” entenderemos períodos de até 250 anos.

Dentre os sentidos de longa duração do termo literatura podemos assinalar aquele derivado da língua latina, que vai de litterae (letras) a litteratura, e depois a todas as palavras correspondentes nas línguas ocidentais, como: literatura (português e espanhol), literature (inglês), literatur (alemão), littérature (francês), letteratura (italiano) etc. Vamos recordar que a palavra latina littera em Português virou letra, o que já traz para o termo literatura uma associação incontornável com a escrita. E é bom lembrar que na Antiguidade Clássica, no tempo dos romanos, e por muitos séculos depois a escrita era uma atividade de poucos e para poucos, pois poucos sabiam ler e escrever. 

Antes da invenção da imprensa e logo após a mesma, o que era colocado em letra (littera em Latim) era algo que era valorizado por alguma razão (fossem leis, registros contábeis, textos religiosos, textos poéticos ou outros). Daí a associação do termo litteratura ao universo do que é escrito, do que aparece através de letras. 

Então, este sentido de longa duração que leva de litterae (letras) a litteratura, em Latim, e depois a todas as palavras correspondentes nas línguas ocidentais, é um sentido antigo e abrangente, designando o universo do que é escrito, a totalidade do conhecimento cultural, expresso em uma pluralidade de gêneros e obras. Este sentido, ligado ao universo do que é escrito, também pode ser associado à ideia de um “objeto”, de algo efetivamente existente no mundo real, seja um texto ou um conjunto de textos, com conteúdos e formas diferentes. 

Aparecem também ligadas a este sentido as significações de modelo e exemplo. Como?

Modelo, entre outras coisas, quando se utiliza o conteúdo atribuído a determinado texto para uma suposta modelização comportamental, ética, religiosa, social etc. A partir desta perspectiva, pode-se presumir que o leitor de determinados textos depreende deles “lições” sobre a vida, a sociedade, a religião, a moral etc.

Exemplo, quando se apresenta a forma de determinado texto como algo a ser imitado por sua “perfeição”, “maestria” ou coisa semelhante. Assim, pode-se presumir que a leitura de textos “exemplares”, vistos como "clássicos", paradigmas, modelos legitimadores dos que os seguem, matrizes da produção textual posterior, poderia fundamentar a aspiração do leitor a compor um texto "satisfatório", pela aplicação de fórmulas conhecidas e aprovadas em textos modelares, ao escrever os seus próprios. 

Dentre os sentidos mais pontuais ou de duração menor, poderíamos citar a ideia do autor como gênio que expressa no texto a sua subjetividade privilegiada, ideia que fez parte da ideologia romântica e ainda permanece como um certo substrato de sentido até os dias de hoje. 

Linguística II - Resumo da Aula 1: Linguagem é coisa da sua cabeça: as línguas humanas como fenômeno cognitivo


Professores Eduardo Kenedy e Ricardo Lima

         1) Algumas Questões sobre a Linguagem 

Todos os seres humanos, exceto aqueles acometidos por alguma grave patologia, possuem a faculdade de produzir e compreender expressões linguísticas; 

Essa faculdade não é inata, porém já aos três anos, essa faculdade se manifesta de maneira bastante produtiva, sendo que por volta dos cinco anos, uma criança já demonstra habilidade linguística equivalente à de adultos. 

A partir da adolescência, a capacidade de adquirir uma língua de maneira natural decai significativamente; 

Cansados ou com danos cerebrais, mesmo parciais, decai nossa capacidade de produzir e compreender enunciados linguísticos; 

Questões como essas são formuladas quando temos a preocupação de entender aspectos da linguagem que estão relacionados à inteligência humana, à nossa cognição. O que é cognição?

Cognição é um termo científico atualmente utilizado para fazer referência ao conjunto das inteligências humanas (ou não, no caso dos estudos de certos animais), diz respeito à aquisição, estocagem, recuperação e uso de CONHECIMENTO. Além da linguagem, são também fenômenos cognitivos: percepção, atenção, memória, conceitos, crenças, raciocínio, emoções, tomadas de decisão, dentre outros.

Obs.: Língua Natural é aquela que emergiu de maneira espontânea e não deliberada no curso da história humana. Língua Artificial é conscientemente inventada por uma pessoa ou por um grupo de indivíduos. 



     2) A Linguagem como fenômeno cognitivo 

As expressões linguísticas são as estruturas que ordenam o trânsito dos significados que vão de uma mente à outra entre indivíduos durante o discurso. São estruturas silenciosas, das quais quase nunca tomamos consciência quando falamos ou ouvimos. 

A linguagem é, portanto, um conhecimento tácito, implícito, inconsciente no conjunto da cognição humana. Denominamos esse tipo de conhecimento como conhecimento linguístico ou competência linguística.

Obs.: Tipos de conhecimento - No estudo da cognição, distinguimos “conhecimento declarativo”, do qual somos conscientes, e “conhecimento tácito”, do qual não temos consciência. Com relação particularmente à linguagem, as informações que adquirimos na escola sobre a gramática da língua portuguesa – como, por exemplo, o nome das classes de palavras e das funções sintáticas – são uma espécie de conhecimento declarativo/explícito. Por outro lado, a nossa capacidade de produzir e compreender palavras, frases e discursos de maneira natural em nosso cotidiano é exemplo de conhecimento tácito/implícito.

Além de silenciosas, as estruturas das línguas naturais manipuladas pela mente são geralmente muito complexas.

A faculdade da linguagem é, com efeito, a disposição biológica que todos os indivíduos humanos saudáveis possuem para adquirir, produzir e compreender palavras, frases e discursos. Temos essa capacidade porque ela é uma característica natural de nossa espécie.

O porquê e o como da linguagem na mente humana são os objetos de pesquisa da linguística como ciência cognitiva.


     3) Linguística como ciência cognitiva 

Chamamos de ciências cognitivas o conjunto das disciplinas, independentes, porém interdisciplinares (a psicologia, a neurociência, a inteligência artificial, a filosofia da mente, a antropologia), que têm em comum o objetivo de compreender a natureza e o funcionamento da mente humana, a nossa cognição. 

Quando os linguistas interpretam a linguagem como uma faculdade psicológica dos seres humanos, a linguística passa a ser uma das ciências cognitivas, que tem a tarefa de descrever e explicar, de forma articulada com os demais estudos de cognição, a natureza, a origem e o uso da linguagem humana.


     4) Principais Perguntas da Linguística como ciência cognitiva 

1) Como é o conhecimento linguístico existente na mente das pessoas? 

2) Como esse conhecimento é adquirido pela criança já nos primeiros anos de vida? 

3) Como esse conhecimento é posto em uso, em situação real, pelos indivíduos? 

4) Como esse conhecimento é produzido pelo cérebro humano? 

Na busca de respostas para tais questões, a linguística subdivide-se em três áreas especializadas em certos tipos de problemas: 

a) a teoria linguística, 

b) a psicolinguística (formula experimentos científicos a fim de testar a cognição não linguística em seres humanos) e 

c) a neurolinguística (utiliza instrumentos sofisticados para observar o funcionamento do cérebro humano quando estamos envolvidos em atividades cognitivas linguísticas e não linguísticas (como a visão, a tomada de decisão, as emoções). 


     5) A Teoria Linguística 


Sua tarefa é, portanto, formular uma teoria (nas ciências, uma “teoria” é uma explicação unificada para um conjunto de dados e de observações sobre determinado fenômeno) que explicite a natureza do conhecimento linguístico inscrito na mente dos seres humanos. Deve elaborar uma hipótese abstrata a respeito de como a linguagem deve funcionar na mente humana. Formular hipóteses sobre como deve ser o conhecimento linguístico existente na mente das pessoas.

O modelo linguístico mais influente nas ciências cognitivas é o gerativismo, que também pode ser chamado de linguística gerativa, gramática gerativa, teoria gerativa, ou ainda, num termo mais antigo, gramática gerativo-transformacional.

Para o gerativismo, a linguagem é uma faculdade mental capaz de “gerar” as frases que somos capazes de produzir e compreender.

O gerativismo teve início nos anos cinquenta do século XX, quando Noam Chomsky, norte-americano professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA), formulou suas primeiras ideias a respeito da natureza mental da linguagem humana.

Para Chomsky, a teoria linguística deve descrever os procedimentos mentais que “geram” as estruturas da linguagem, como as palavras, as frases e os discursos.

A linguística ocupava-se quase exclusivamente da dimensão social e histórica da linguagem humana, tal como acontecia no estruturalismo linguístico (Ferdinand de Saussure e Leonard Bloomfield - estruturalismo europeu e norte-americano, respectivamente). Com Chomsky, a morada da linguagem e das línguas naturais passou a ser a mente dos indivíduos.

Chomsky demonstrou o caráter criativo da linguagem humana, sua natureza mental e abstrata, por oposição ao modelo de linguagem como “comportamento condicionado pelo ambiente” defendido pelos behavioristas. 

No chamado Programa Minimalista, Chomsky defende a hipótese de que todas as línguas naturais são um conjunto de princípios universais e inatos e de parâmetros, também inatos, mas formatados durante o período da aquisição da linguagem.


     6) Psicolinguística 

Caracteriza-se como uma ciência empírica cujo objetivo é investigar de que maneira as crianças adquirem uma língua natural e como os indivíduos adultos produzem e compreendem palavras, frases e discursos no tempo real da comunicação cotidiana.

A psicolinguística deve testar as hipóteses abstratas do modelo gerativista no estudo concreto da aquisição, da produção e da compreensão da linguagem, de modo a encontrar ou não evidências que as confirmem.


     7) Neurolinguística ou Neurociência da Linguagem 

É uma ciência empírica cujo objetivo é compreender os mecanismos cerebrais que dão origem à linguagem humana, dedica-se ao estudo da mente, isto é, das funções cognitivas visíveis no comportamento humano, ocupa-se do cérebro, seus neurônios e suas sinapses – os sistemas físicos, químicos e biológicos que tornam a mente possível.


     8) Para compreendermos a diferença Psicolinguística e Neurolinguística 

Se fizermos uma metáfora, entenderemos que a mente são os nossos softwares psicológicos (campo da Psicolinguística), como a linguagem, a visão, o raciocínio etc., enquanto a superfície física que torna possível o uso desses softwares é o cérebro (campo da Neurolinguística), o nosso hardware neuronal.




Obs: As áreas do cérebro responsáveis pela linguagem humana: 
área de Broca (produção) e área de Wernicke (compreensão).


     9) Os três campos dos estudos linguísticos 


Assim, a realidade teórica do conhecimento linguístico é o objeto das pesquisas em teoria linguística (o “quê” da competência linguística humana). Já a psicolinguística tem como objeto de estudo a realidade psicológica das línguas naturais no seu funcionamento em tempo real na mente humana (o “como” dos processos psicológicos pelos quais o conhecimento linguístico se realiza na mente humana). Por fim, o objeto da neurolinguística é a realidade neurológica da linguagem no cérebro, em sua substância eletroquímica (o “onde” dos processos neurológicos que realizam fisicamente a linguagem na substância neuronal do cérebro).


     10) A integração dos campos dos estudos linguísticos 

Os estudos da teoria linguística serão articulados às descobertas sobre a realidade psicológica e a neurológica da linguagem, de modo que se torne possível formular respostas integradas às questões “o que é conhecimento linguístico?”, “como ele é adquirido?”, “como ele é usado?” e “quais são seus substratos neurológicos?”.