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domingo, 10 de abril de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 6: A história da específica Literatura Brasileira – a obra de José Veríssimo (II)

Professores André Dias, Marcos Pasche e Ilma Rebello

  1. Introdução

Em determinado momento do décimo primeiro livro de suas Confissões, Santo Agostinho, filósofo cristão, reflete a respeito do tempo, no intuito de encontrar definição para aquilo que se afigurava indefinível a seus olhos e mente: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” (1996, p. 322). Diante da aporia (dificuldade ou dúvida racional decorrente da impossibilidade objetiva de obter resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica. Situação insolúvel, sem saída.) que o emparedava, sem alcançar resposta objetiva ou satisfatória para seu questionamento, o filósofo solicitava ajuda divina para alcançar esclarecimento: “Senhor, desfazei este enigma!” (p. 329).
Passando à Literatura, também nos deparamos como uma aporia, quando tentamos defini-la. Como se vê, a resposta à pergunta “O que é literatura?” é tão pródiga de possibilidades quanto inalcançável. Mas nem por isso os teóricos se isentam de se lançarem a ela. No século XX, a questão tornou-se central tanto entre artistas quanto entre pensadores, fazendo-se fortemente atual ainda hoje, em pleno século XXI, tanto que a obra que não carrega consigo, explícita ou implicitamente, a teorização a respeito de seu próprio processamento, costuma ser identificada por setores da crítica como menos expressiva.


  1. Concepções Literárias de José Veríssimo

José Veríssimo foi um estudioso bastante afetado pela onda cientificista de seu tempo. Mas também vimos que ele teve a capacidade de não fazer das teorias que lhe foram contemporâneas uma camisa de força, demonstrando o mérito de não engessar seu pensamento pelo determinismo fechado.
Diferentemente dos críticos naturalistas ortodoxos, que lidavam com a literatura como se ela fosse um fato consumado, já saído da mente do autor como produto das forças da história e da natureza, Veríssimo recorre à filosofia e à estética para tentar compreender o controverso e plural fenômeno:
Várias são as acepções do termo literatura: conjunto da produção intelectual humana escrita; conjunto de obras especialmente literárias; conjunto (e este sentido, creio, nos veio da Alemanha) de obras sobre um dado assunto, ao que chamamos mais vernacularmente bibliografia de um assunto ou matéria; boas letras; e, além de outros derivados secundários, um ramo especial daquela produção, uma variedade da Arte, a arte literária (p. 23).”
A diferenciação principal, estabelecida entre a ideia de literatura como conjunto de textos aproximados pelo assunto e entre a de literatura como texto de natureza artística, é ampliada por uma interpretação do próprio Veríssimo, de acordo com a qual o fim maior da literatura é comover. A mais, para solidificar seu conceito literário, ele recorre a uma definição do crítico português Moniz Barreto (1863-1896), para quem o caráter essencial da obra literária é “a generalização no pensamento e a generalidade na expressão”, ou seja, a capacidade da literatura de tratar de diversos assuntos a partir de formas variadas, sem o compromisso previamente estabelecido de assumir uma dicção ou abraçar um tema. Diversa na forma, ampla no tema e voltada para comover: esta é sem dúvida uma aproximação do conceito literário de José Veríssimo.
“História da literatura de um país e história literária do mesmo não são, a meu ver, exatamente a mesma coisa, e era evidente para todo o espírito atilado e desprevenido que escrevendo intencionalmente aquela frase eu intencionalmente distinguia as duas coisas. Há nas obras escritas de um povo uma cópia enorme de produções que, fazendo parte de sua história literária, que é a história de quanto ele escreveu, ainda com interesse prático e sem mira de provocar uma emoção, ou exprimir a beleza, e sem a generalidade que constitui a obra de pura literatura, não fazem parte da história desta. A história de uma literatura deve, penso eu, e parece-me esta é a compreensão comum, compreender somente o que é literatura, isto é, segundo um escritor francês, “todas as obras inspiradas principalmente pelo intuito de comunicar a outro uma emoção desinteressada” (1977, p. 126).”
Mais uma vez confirma-se a distinção: a literatura genérica é o coletivo de letra, de discurso escrito; a literatura específica é a de caráter artístico, nascida da espontaneidade e marcada pela beleza (Veríssimo partilhava da ideia de perfeição formal, que sabemos tão cara aos tradicionalistas parnasianos).
José Veríssimo formula uma divisão binária da Literatura Brasileira: “Concluo, portanto, sem presumir de incontestável este juízo, que na história da literatura brasileira, períodos definidos, bem determinados, distintos, só há dois: o colonial e o nacional”, diz o autor em “Os períodos ou épocas da literatura brasileira” (1977, p. 82).


  1. A História da Literatura Literária do Brasil

Apesar de bem menos volumosa, a História da literatura brasileira, de José Veríssimo tem mais alcance do que a obra homônima de Sílvio Romero, e em vários aspectos. A própria redação mais enxuta é o primeiro deles, pois Veríssimo, ao definir seu conceito de literatura e, mais especificamente, o de Literatura Brasileira, foi diretamente ao assunto, abordando só o que julgava interessante.
Assim, isentou seu livro de qualquer possibilidade de semelhança a um tratado cientificista, não cedeu à deselegante postura de usar seu livro para promover a si próprio, enaltecendo seus “admiráveis” feitos intelectuais e/ou políticos. Por tudo isso, os julgamentos efetivados por Veríssimo parecem-nos bem mais amplos e fundamentados do que os do fundador da crítica moderna no Brasil (Sílvio Romero).
Como ponto negativo, destacamos que Veríssimo se manteve ligado ao evolucionismo e ao determinismo de caráter histórico, e entendia que nossa literatura, em conjunto, tornara-se independente e interessante a partir do momento em que se pintou com as cores nacionais, personificadas nas paisagens e no índio brasileiro.
Pontuou sobre o Século XVII: “Não é, pois, de estranhar que em nenhum dos primeiros cronistas e noticiadores do Brasil, no primeiro e ainda no segundo século da colonização, mesmo quando já havia manifestações literárias, se não encontre a menor referência ou alusão a qualquer forma de atividade mental aqui, a existência de um livro, de um estudioso ou coisa que o valha (1916, p. 38).
A respeito do Século XVII: busca identificar as reais origens da literatura nacional. Ao perguntar qual teria sido o primeiro brasileiro a publicar uma obra literária, encontra resposta na figura de Bento Teixeira, o qual “fica, pois, sendo, não só o primeiro em data dos poetas brasileiros, mas o patriarca dos nossos ‘engrossadores’ literários” (p. 53). Não se vê o emprego do termo Barroco, mas os destaques já eram os que se fazem ainda hoje: padre Antônio Vieira, na prosa, e Gregório de Matos, na poesia. A respeito do sacerdote, é destacada a sua atuação como religioso e protetor dos índios. Vieira recebe destaque ainda pelo engenho e o apuro dos seus sermões, com os quais foi elevado à categoria de autor de discursos estéticos: “No seu tempo se fazia justamente ouvir a voz eloquente e florida do Padre Antônio Vieira e a sua palavra de um tão sabor literário”. Em se tratando de Gregório de Matos, Veríssimo é mais reverente: a ele dedica um capítulo à parte, assim iniciado: “Do grupo baiano o mais conhecido, o mais interessante e curioso e ainda, em suma, o mais distinto é Gregório de Matos” (p. 91). O crédito não deriva da originalidade discursiva do baiano, nem da maneira como exprimiu as angústias do homem dilacerado por verdades antagônicas. Não. Para Veríssimo, Gregório, “um poeta burlesco, picaresco e até chulo” (p. 101), tem importância literária “por lances interessantíssimos à história dos nossos costumes e da sociedade do seu tempo” (p. 105). Ou seja, o poeta construiu obra relevante por ela retratar alguns itens da sociedade em que viveu seu autor.
Sobre o Século XVIII, vê na riqueza mineradora um impulso à cultura. Ao mesmo tempo em que emprega o termo “Arcadismo”, ele rejeita “Escola Mineira”, por não enxergar aqui uma escola ou estilo, visto que o manifesto ideológico dos árcades, preconizando uma literatura da simplicidade e do equilíbrio, não alcançou correlação na efetivação da escrita. Daí o Arcadismo ter se mantido, em sua opinião, bastante análogo ao seiscentismo. Apesar de não ver no momento uma elevação ou evolução substantiva, Veríssimo derrama-se em elogios ao afamado livro de Tomás Antônio Gonzaga, “Marília de Dirceu, o título consagrado das liras de Gonzaga, é a mais nobre e perfeita idealização do amor da nossa poesia”.
Em relação ao Século XIX, afirmou ser o mais alto feito da literatura nacional em termos de conjunto, o Romantismo: “Verdadeiramente é do século XIX que podemos datar a existência de uma literatura brasileira” (p. 163). Diferentemente de Romero, que divide a poesia romântica em seis gerações, Veríssimo a classifica em três fases (chamando-as de gerações também) e conforme dissemos anteriormente, inclui os prosadores e elege como principais representantes Gonçalves Dias e José de Alencar, ambos pela qualidade literária e pela vontade persistente de promover a literatura nacional (p. 271). Também na contramão de Sílvio Romero, José Veríssimo dá pouca importância ao Condoreirismo, para ele “um falso gênero de poesia enfática e declamatória” (p. 314). Em nada confirma a importância dada pelo sergipano a Tobias Barreto, e destaca a primazia de Castro Alves, mas sem o respeito firme dado aos próceres da segunda geração e, muitíssimo menos, sem a paixão com que exaltou os românticos do primeiro momento.
A parte final do século XIX representa um cruzamento de tendên­cias ideológicas e de formas literárias na Europa e, portanto, no Brasil. A esse momento Veríssimo chamará de “Modernismo”, porque via no movimento das letras uma extensão das transformações políticas e sociais que germinavam no Brasil àquela altura, consumadas com a Abolição e a Proclamação da República.
Veríssimo não adota o termo “Realismo” para nomear um estilo, e despreza o Simbolismo por ver nele manifestação obscura e desimportante (é sabido que os simbolistas foram marginalizados no período em que escreviam).
Por isso, os estilos autenticamente representativos da fase moderna da Literatura Brasileira seriam o Naturalismo e o Parnasianismo. Ao primeiro, Veríssimo deu bem pouca importância: “Obras realmente notáveis e vivedouras, ou sequer estimáveis, bem poucas produziu, e nomes que mereçam ser historiados são, acaso, apenas três: Aluísio de Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompeia” (p. 338). A respeito do segundo, Veríssimo foi apenas constatador e descritivo, vendo, de forma inteligente, que a estética parnasiana não se manifestou, no Brasil, como mero transplante. A cultura local moldou o rigor formal, e os nossos parnasianos, apontados pelos manuais como impessoais e contidos, ufanaram-se pela pátria e declararam amor às estrelas e às belas formas de escrita.
Para ele, Machado de Assis foi “a mais alta expressão do nosso gênio literário” (p. 393), “poeta dos mais importantes da literatura brasileira” (p. 403) e “o mais insigne dos seus prosadores” (idem). A respeito de Memórias póstumas de Brás Cubas, não é menos econômico em seus juízos:
...romance de rara originalidade, uma obra, a despeito do seu tom ligeiro de fantasia humorística, fundamente meditada e fortemente travada em todas as suas partes, porventura a mais excelente que a nossa imaginação já produziu (p. 405).”
Nisso José Veríssimo alcançou um dos seus maiores méritos, pois foi um dos raros contemporâneos de Machado de Assis a não lhe rejeitar a obra, sob a justificativa de estranha e desprovida de linearidade discursiva (Sílvio Romero, inclusive, relacionou o estilo do autor à sua gagueira, e concluiu que o autor não tinha méritos literários por não possuir continuadores do seu estilo).

Ao fazermos um retrospecto do legado de José Veríssimo, independente das limitações impostas pelo ideário crítico de seu tempo, concluímos que o estudioso produziu uma obra de imensa qualidade, dando uma contribuição decisiva para o aprimoramento da crítica literária do Brasi

domingo, 3 de abril de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 5: A história da específica Literatura Brasileira – a obra de José Veríssimo (I)

Professores André Dias, Marcos Pasche e Ilma Rebello

1) Introdução 

O modo dialético (para alguns filósofos, em especial Hegel e Marx, a dialética é uma forma de percepção e concepção da realidade e, por consequência, um método de desenvolvimento do pensar) como desenvolve seu raciocínio leva-o a responder de forma paradoxal: sim e não. 

A cultura ocidental, sobretudo após o advento do Iluminismo, passou a compreender o mundo a partir de uma perspectiva racionalista. Quando comparada, por exemplo, com o período das trevas medievais, tal posição se apresenta como um avanço evidente. Entretanto, uma noção distorcida de racionalidade conduz os indivíduos pelo inevitável caminho do reducionismo e da segregação. 

Desconsiderar que um mesmo evento pode ser constituído por elementos supostamente contrários ou até mesmo antagônicos, constitui-se como um modelo evidente de deformação do ideário racional. Esse fato tem como consequência imediata a subtração da contradição, elemento tão caro à experiência humana. 

Em outras palavras, se suprimirmos a noção de contradição das relações humanas, incorreremos no equívoco de acreditar em ideias perigosamente totalitárias. Sentenças como “onde há civilização não pode haver barbárie”; “a luz da ciência está de um lado e, de outro, a treva da fé”; ou “o conceito de antigo está vinculado ao atraso e o de novo representa o progresso”, são bons exemplos de como afirmações categóricas irrefletidas podem ser excludentes. 

De acordo com certa racionalidade, que aqui denominamos de estreita, sua resposta (“sim e não”) significaria uma impropriedade, pois, em tese, ou é possível ou é impossível alguém escapar das redes ideológicas de uma determinada época. Só que, como nos ensina a dialética, inevitavelmente nos deparamos com pessoas, ideias, situações ou coisas em geral que se apresentam como sim e não ao mesmo tempo. Pois, para os seres humanos não há coisa em si: tudo é passível de contextualização e de interpretação. 


2) Os Caminhos de um Crítico em Gestação 

O lado “não” da proximidade entre vida do autor e interpretação da obra por ele produzida se verifica na hipótese de ver no texto traços que se explicam unicamente por ter o autor vivido certas situações ou possuir determinadas características, o que na prática significa determinismo biográfico. 

José Veríssimo não chegou a efetivar uma crítica de estrito teor biográfico. Principalmente na fase inicial de sua carreira, ele pesava sobretudo a força do meio cultural, que incidia sobre a psicologia do autor e arquitetava uma obra em sua totalidade. Mas o biografismo se fez presente, ainda que em doses discretas, no seu exercício crítico. Este fato é facilmente verificável na sua História da literatura brasileira, em cujas páginas cada autor contemplado recebe, antes da análise de sua produção, uma nota a dizer onde e quando nasceu, morreu e o que fez em vida. 

Ávido leitor dos teóricos naturalistas e deterministas, Veríssimo colhe suas lições para aplicá-las ao estudo da região de que é proveniente. O estudioso não abandona essa perspectiva nem mesmo quando elabora os textos ficcionais de Cenas da vida amazônica. Intelectual da transição do século XIX para o XX, ele viu de perto, como espectador e participante, os acalorados debates acerca da brasilidade, algo de que sua obra foi nutrida substantivamente. Homem público, editor e educador não se isentou de dar às suas páginas ares de civismo. Sua obra extrapolou as raias nacionais e abordou assuntos e autores de esfera universal. 


3) As Vias Opostas de Veríssimo 

No Ensaio “José Veríssimo: teoria, crítica e história literária” (1977), o crítico João Alexandre Barbosa divide a carreira do intelectual paraense em três fases: 
  • a que corresponde à atividade provinciana do autor, de 1878 a 1890; 
  • a que define a sua participação na vida intelectual do Rio de Janeiro quer como crítico literário, quer como professor e editor, de 1891 a 1900, e, finalmente; 
  • aquela em que reúne os seus textos em livros e escreve a História da literatura brasileira, publicada no mesmo ano de sua morte, 1916. 
No início, a perspectiva de Veríssimo está intimamente ligada ao ideário cientificista que, no Brasil, começou a ganhar corpo na década de 1870. Suas primeiras páginas são fortemente impregnadas de naturalismo, de evolucionismo, de determinismo e de tudo o mais que fosse oferecido no grande cardápio das ciências biológicas e sociais oitocentistas. Em um texto de 1877, intitulado “A literatura brasileira: sua formação e destino”, o autor emite opinião a respeito da formação étnica brasileira. Vejamos: “Um terceiro elemento étnico veio, passados tempos, trazer-nos um fatal contingente. Falamos do elemento africano. Foi o pior dos que tivemos.” 

A segunda fase de José Veríssimo é, no entender de Barbosa, caracterizada pela gradativa correção de seu pensamento anterior – “Fui profundamente injusto com a raça negra, na qual tenho antepassados” – ao mesmo passo em que seu pensamento cedia cada vez maior margem para as constituições particulares da literatura. Em “Estudos de literatura brasileira” (1901) –, ele distingue o estilo realista do realismo como função literária: “Eu não creio que o Realismo seja propriamente uma escola; o Realismo é a mesma Arte, pois que a arte não é senão a tentativa de representação do real. Os processos dessa representação como os intuitos que inspiram podem variar, mas esse é o fim da arte.”

A terceira fase aludida por João Alexandre Barbosa é a que serve de preparação para a obra magna de Veríssimo, a História da literatura brasileira. Nessa fase, ocorre uma singular confluência das duas tendências anteriores, sem a febre cientificista do início, é certo, mas sem o exclusivismo teórico da literatura, é certo também. Além disso, este período foi o mais fértil da carreira do autor, tanto quantitativa quanto qualitativamente. Porém, a guinada radical do crítico que se liberava gradualmente das amarras deterministas jamais aconteceu. Em sua obra permanecia ainda a sede de explicar o Brasil por meio da literatura, o que em geral é reducionista para um e para o outro.

Na prática, isto significa dizer que a crítica de José Veríssimo se mantinha pautada pela análise segmentada. Ou seja, ao abordar determinada obra, o autor não raro apontava primeiramente a biografia, em seguida emitia referências gerais de contexto social e, só depois, efetuava a análise da obra.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 4: A história e a literatura como produtos da ciência. A historiografia de Sílvio Romero (II)

Professores André Dias, Marcos Pasche e Ilma Rebello

1) Introdução 

O modelo de crítica literária predominante atualmente trabalha com uma perspectiva da literatura que se poderia chamar de autônoma, o que significa estudar a literatura a partir de suas particularidades específicas, de forma e de sentido, sem ser necessário buscar escora em outras disciplinas para pensá-la e compreendê-la. 

Os críticos filiados a tal corrente costumam rechaçar qualquer aproximação da História e da Sociologia, principalmente, visto que elas tiveram grande apelo entre os estudos literários mais representativos até certa altura do século XX. 

Assim, um poema, um conto ou um romance interessam na medida em que apresentam uma linguagem a operar um constante deslocamento, seja de significados, seja de estrutura sintática, seja dos dois. O que realmente importa é, no espaço do estudo literário, tornar a literatura um fenômeno autônomo, reconhecê-la como dotada de verdades exclusivas, sendo o princípio e o fim de si mesma. 

A função do crítico é notar onde e como ocorre a literariedade (Qualidade de literário; conjunto de características (linguísticas, simbólicas, filosóficas, sociológicas) que permite considerar um texto qualquer como literário.), isto é, a emissão de um discurso, único e diverso, que só pode ser proveniente de um texto literário. 


2) A Concepção Crítica de Sílvio Romero 

Ele tinha a acertada intenção de fazer da crítica um instrumento de conhecimento não só da literatura e, mais especificamente, da literatura brasileira. Seu intento era contribuir para a percepção alargada do país e de tudo o que o constituía. 


3) Equívocos da postura de Sílvio Romero: 

  • considerar desimportante tudo o que tratasse exclusivamente da essência literária, como se o que não tivesse reverberação sociológica e histórica fosse mau exemplo de “arte pela arte”. “A divisão proposta [da História da literatura brasileira] não se guia exclusivamente pelos fatos literários, porque para mim a expressão literatura tem a amplitude que lhe dão os críticos e historiadores alemães. Compreende todas as manifestações da inteligência de um povo: política, economia, arte, criações populares, ciências... e não, como era de costume supor-se no Brasil, somente as intituladas belas-letras, que afinal cifravam-se quase exclusivamente na poesia!...” 
  • muito generalizador, falando de diversos assuntos e muito pouco de literatura 

4) Diretrizes básicas da análise crítica de Sílvio Romero: 

  • Uma Interdisciplinaridade singular, mesclando correntes muito próximas, visto que todas elas pautavam-se pela determinação lógica da constituição e do movimento existencial dos fenômenos que estudaram: o Positivismo (Auguste Comte e Herbert Spencer - a extrema ordenação social levaria uma determinada comunidade ao progresso), o Evolucionismo (Charles Darwin - a permanência de um ser ou de uma espécie na natureza depende de sua capacidade de resistir e adaptar-se a transformações), o Socialismo Científico (Karl Marx - assevera que a fome do capitalismo irá conduzi-lo “naturalmente” à sua própria destruição, e que a transformação mundial advirá dos trabalhadores explorados) e, fundamentalmente, o Determinismo (Hippolyte Taine - toma fatores diversos da natureza e/ou da sociedade para explicar o caráter humano), além do Naturalismo, que é uma fusão de Evolucionismo e Determinismo, buscando em fatores externos ao homem os condicionantes de sua natureza interna. Tal fusão resultou num método de análise rico, no sentido da diversidade de perspectivas, mas absolutamente pobre, no sentido do alcance interpretativo da história e da literatura. 
  • Meio, história e raça. Essa tríade, abraçando as variantes natureza, sociedade e cultura popular, determina, para Sílvio Romero, o tipo de literatura produzido em determinado país: 
No entender, de Sílvio, era a interferência do meio natural sobre a literatura do Brasil: “É a descrição mais ou menos exata do Brasil. Temos uma população mórbida, de vida curta, achacada e pesarosa em sua maior parte. E que relação tem isto com a literatura brasileira? Toda. É o que explica a precocidade de nossos talentos, sua extenuação pronta, a facilidade que temos em aprender e a superficialidade de nossas faculdades inventivas (...). É a razão de toda essa galeria pátria, merencória e sombria de tísicos e histéricos, mortos antes dos trinta anos, onde estão Azevedo, Casimiro de Abreu, Varela, Castro Alves, Junqueira Freire, Macedo Júnior, Dutra e Melo, Franco de Sá (...).” 

A interferência da história: O povo inglês naquele tempo [colonial] tinha sede de liberdade, as lutas religiosas estavam em seu dia. O povo português dormitava na beatice; a Inquisição tinha a sua noite. O americano nasceu livre, o brasileiro só o será mais tarde. Não deixam de ser poderosos agentes de estacionamento o falso nacionalismo literário, a imitação estrangeira e a idolatria dos pátrios gênios. A história dá a razão de tudo. 

A interferência do componente racial: A ação fisiológica dos sangues negro e tupi no genuíno brasileiro explica-lhe a força da imaginação e o ardor do sentimento(...). Nos contos e lendas é direta a ação das três raças [branca, índia e negra] e a influência do mestiço ainda muito insignificante, a não ser como agente transformador. 


5) A História Determinista da Literatura Brasileira 

A publicação original da História da literatura brasileira, de Sílvio Romero, data de 1888. A obra foi e tem sido publicada em dois volumes, mas ela se constitui por quatro livros: 

  • ao primeiro deu-se o nome de “Fatores da literatura brasileira”, com o qual o autor apresenta sua metodologia crítica; 
  • o segundo, intitulado “Primeira época ou período de formação (1500-1750)”, já aborda o movimento histórico das letras nacionais, no período colonial; chama-se “Segunda época ou período de desenvolvimento autônomo (1750-1830)”; 
  • o terceiro livro, centrado numa época cara ao autor, dado que se abandonava a colonização e produzia-se a literatura que, para ele, era a mais rica do Brasil: a da Escola Mineira; “Terceira época ou período de desenvolvimento autônomo (1830-1870)”; 
  • a quarta e última sessão, manchada, no entender de Sílvio, pelo indianismo romântico, apesar de reconhecer nela algum valor. 
Quanto à divisão dos períodos, nenhuma proposta de Sílvio foi aproveitada pelos historiadores subsequentes. Aliás, há tempo considerável só se retorna a Sílvio Romero para ilustrar equívocos de abordagem literária, o que se vê principalmente pela eleição, feita pelo crítico, de autores importantes e dos escritores insignificantes. 

Quanto aos autores e escolas, ele tem suas preferências e as declara sem o menor constrangimento. O dado problemático nele, no entanto, são os aspectos empregados para justificar os julgamentos que faz: 

  • ignora voluntariamente Pero Vaz de Caminha, pois para ele só os autores nascidos no Brasil ou os que nele viveram a maior parte do tempo deveriam figurar em nossa história;
  • inicia com Fernão Cardim, e suas anotações de viagem feitas quase ao fim do século XVI;
  • destaca com louvor a atuação do padre José de Anchieta; 
  • Padre Antônio Viera “é um português que viveu no Brasil, simboliza o gênio português com toda a sua arrogância na ação e vacuidade nas ideias, com todos os seus pesadelos jurísticos e teológicos”; 
  • Gregório de Matos “é um brasileiro que residiu em Portugal, é a mais perfeita encarnação do espírito brasileiro, com sua facécia fácil e pronta, seu desprendimento de fórmulas, seu desapego aos grandes, seu riso irônico”; 
  • Escola Mineira (o Arcadismo) é “talvez o período mais brilhante e original de nossa poesia”, e, embora não o diga diretamente, a opinião se baseia no encontro da riqueza proveniente da mineração, do clima ameno das cidades “históricas” (uso aspas porque toda cidade é histórica) de Minas e de uma poesia escrita por homens brancos a retratarem exemplarmente a natureza e a esboçarem nosso nativismo literário; 
  • Silva Alvarenga – “é assim um dos iniciadores inconscientes do romantismo brasileiro, não tanto por esse lado da poesia íntima, como pela cor natural de seus quadros”;
  • Tomás Antônio Gonzaga – “Vê-se que o lirista quase romântico, o amoroso sonhador conhecia o seu meio; a natureza e a sociedade não lhe eram estranhas. A poesia citada [“Lira XXVI” de Marília de Dirceu] é puramente brasileira”; 
  • A abordagem do Romantismo é a que mais chama a atenção, pois são as mais impregnadas de cientificismo , sendo a ele dedicado todo o segundo volume da História. Causam grande surpresa a exclusão da prosa ficcional e a divisão do estilo em seis fases, que, a rigor, são seis grupos temáticos ou mesmo geográficos: emanuelismo (religiosidade), indianismo, subjetivismo, sertanejismo, lirismo específico e condoreirismo;
  • “Em [Álvares de] Azevedo melhor do que em nenhum outro distingo eu os dois sintomas: 1º é ele um produto local, indígena, filho de meio intelectual, de uma academia brasileira; 2º arranca-nos de uma vez da influência exclusiva portuguesa”;
  • De seu amigo e mestre Tobias Barreto ao patamar mais importante poeta brasileiro. Prova disso é que dedica ao abolicionista mais de cem páginas, verdadeira veneração pelo homem que exprimia exatamente o espírito da época: “A eloquência de Tobias Barreto foi uma das mais belas coisas que pude apreciar na vida”; 
Em sua historiografia sobram acessórios e falta justamente o principal, que é a análise literária (é pena que na História não esteja presente o estudo que faz sobre Machado de Assis, tachado por ele de enfadonho repetidor). Daí se explica a total abominação da crítica atual por esta figura controversa, que iniciou a modernização da crítica literária brasileira pela via do retrocesso.

sábado, 26 de março de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 3: A história e a literatura como produtos da ciência – a historiografia de Sílvio Romero (I)

Professores André Dias, Ilma Rebello e Marcos Pasche


1) Quando Sílvio Romero ainda não era Sílvio Romero 

O estudioso sergipano começou a redigir suas intervenções em fins da década de 1860, quando tinha apenas 18 anos (ele nascera em 1851). Apenas uma década depois iniciaria sua efetiva carreira intelectual, passando a publicar os primeiros livros, quando a cena literária brasileira era protagonizada pelo Romantismo, caracterizada por um predomínio da idealização da realidade, fartura de sentimentalismo e uma soma estranha, porém bem resolvida pelos românticos, de meiguice e morbidez. 

Àquela época, o escritor de literatura, normalmente homem elitista e profissional das leis ou da política (ou de ambas), não raro desempenhava os papéis de historiador, de antropólogo, de sociólogo etc. O caso talvez mais ilustrativo desse típico homem letrado no Brasil oitocentista é o do cearense José de Alencar, que em suas obras literárias apresentou, por exemplo, a figura do índio em grande medida como uma caricatura de um cavaleiro medieval. Porém, o conjunto da obra literária de Alencar se configurou como um dos primeiros e mais relevantes projetos intelectuais de formação da nacionalidade brasileira já vistos até então.


2) Entre Lá e Cá 

Sílvio Romero, que sempre foi dado ao barulho e à polêmica. Alguns pontos de vista (alguns contraditórios) do sergipano:
  • desagradava da ideia reducionista de que o Brasil deveria ser o ponto de partida e de chegada das reflexões das ciências humanas; 
  • contraditoriamente, este mesmo crítico da ideia de que ao brasileiro bastava o Brasil foi um grande defensor do nacionalismo literário e social; 
  • afirmava que uma obra se tornava mais verdadeira quanto mais se aproximasse da realidade que cercasse seu autor; 
  • posicionou-se firmemente contra o Romantismo; 
  • defendia também que o papel do escritor era o de contribuir para a expressão e o conhecimento do caráter nacional brasileiro, o que foi um projeto inscrito na ordem do dia dos primeiros românticos. 
Acreditava que os autores brasileiros deveriam escrever sobre o Brasil e fazer uma adaptação da linguagem literária tradicional para que isso forjasse um modo particular de dizer as coisas por meio da literatura. Esse abrasileiramento contribuiria para que se retirassem de cena os meros imitadores da literatura portuguesa. 

Por outro lado, Sílvio apregoava a necessidade de o conhecimento atravessar fronteiras, para que o intelectual do país não se fechasse num universo restrito, até mesmo porque os naturalistas acreditavam na superioridade intelectual da Europa, por lá estar uma civilização mais avançada do que a nossa e desenvolvida por uma raça superior à dos habitantes locais. 

Não há contradição nesse caso, mas um reconhecimento da validade dos dois paradigmas. Tentemos perceber isso agora por meio de suas próprias palavras, todas extraídas da História da Literatura Brasileira: 
  • Sobre mérito e demérito literário 
“Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas ideias. Os operários deste fato inicial têm sido: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.” 

“Tudo quanto há contribuído para a diferenciação nacional deve ser estudado, e a medida do mérito dos escritores é este critério novo. Tanto mais um autor ou um político tenha trabalhado para a determinação de nosso caráter nacional, quanto maior é o seu merecimento.” 
  • Sobre o erro de posturas unilaterais entre xenofobia e respeito aos valores brasileiros 
“Deve saber do que se vai pelo mundo culto, isto é, entre aquelas nações europeias que imediatamente influenciam a inteligência nacional, e incumbe-lhe também não perder de mira que escreve para um povo que se forma, que tem suas tendências próprias, que pode tomar uma feição, um ascendente original.”

“Se é uma coisa ridícula a reclusão do pensamento nacional numas pretensões exclusivistas, se é lastimável o espetáculo de alguns escritores nossos, atrasados, alheios a tudo quanto vai de mais palpitante no mundo da inteligência, não é menos desprezível a figura do imitador, do copista servil e fátuo de toda e qualquer bagatela que os paquetes nos tragam de Portugal, ou de França, ou de qualquer outra parte…”
  • Refaz o seu ponto de vista sobre o indianismo (Gonçalves Dias e José de Alencar) 
“Eu não sou e nunca fui indianista: sempre estive na brecha batendo os exageros do sistema, quando das mãos dos dois grandes mestres [Dias e Alencar] passou às dos sectários medíocres. Mas esse velho, e por mim tão maltratado indianismo, teve um grandíssimo alcance: foi uma palavra de guerra para unir-nos e fazer-nos trabalhar por nós mesmos nas letras.

Sílvio Romero, ao abordar a questão do local e do universal (encruzilhada longamente presente na literatura brasileira), alertou para a invalidade das duas posturas, desde que cada uma fosse tomada de forma irrestrita, e por isso restritiva. 


3) O Caminho do Meio 

Antes de Sílvio Romero, o que se entendia por crítica literária limitava-se a Livros como O Parnaso brasileiro (1831), de Januário da Cunha Barbosa, Varões ilustres do Brasil nos tempos coloniais (1858), de Pereira da Silva, ou Curso elementar de literatura nacional (1862), do cônego Fernandes Pinheiro, que resumem-se basicamente a arrolar certos autores e os textos que escreveram, além de um ou outro item biográfico.

Esse tipo de aglutinação, desprovido de método e de rigor interpretativo, foi predominante por muito tempo no Brasil, e pode-se dizer com convicção que Sílvio Romero foi quem o quebrou de maneira firme e sistematizada, sendo por isso pertinente considerá-lo o fundador da crítica moderna no Brasil.

A História da literatura brasileira (1888) apresenta um longo discurso não apenas sobre a as letras nacionais, e sim sobre todo um complexo existencial do país. 

É preciso creditar a Sílvio Romero a intensa atividade profilática contra a hipérbole, a atitude embasbacada e o louvor indiscriminado, que predominavam na crítica romântica. Ele acidulou o vocabulário, adotou uma estratégia de agressão que o leva a comparar incessantemente a literatura à realidade do quotidiano, e assim estimulava o leitor a encarar criticamente o seu país.

“Prólogo da 1ª edição” (da História da Literatura Brasileira): “Sempre a força biológica na história, isto é, a ação étnica, representada pelo sangue e pela língua, foi-se tornando o centro de atração constituidor dos grandes focos nacionais. Assim foi por toda a parte”.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 2: Herdando uma biblioteca. Parte I: O cânone literário ao longo do século XIX

Professores Igor Graciano, André Dias e Ilma Rebello

     1) A Formação do Cânone Literário Brasileiro 

O primeiro impulso que caracterizou o Romantismo, sobretudo na sua fase inicial, independente se na prosa romanesca, no teatro ou na poesia, foi o de procurar consolidar uma identidade nacional brasileira. 

Para tanto, os autores do período, através de suas obras, buscaram representar as cenas urbanas e as diversas paisagens regionais de norte a sul do país, e elegeram o índio como a síntese do herói fundador, o legítimo filho da terra. 

O trabalho crítico de construção desse cânone se pautou desde então pelo critério de nacionalidade, pois se tratava de conceber a literatura que se originava e deveria expressar a nação recém-nascida. 

A formação do cânone literário seguiu, de bem perto, o próprio desenvolvimento de nossas relações de dependência e de autonomia com vistas às fontes metropolitanas” (BARBOSA, 1996, p. 23). 

Através de uma perspectiva dialética, revelava a natureza partida de nossa produção intelectual daquele momento, que buscava compreender e expressar o país, porém tinha nas referências estrangeiras um indiscutível paradigma.


     2) As Contribuições Estrangeiras e Nacionais para a Formação do Cânone Literário Brasileiro 

O grande tema que movia os escritores do período romântico girava em torno da tarefa de construção da identidade da nação recém-independente de Portugal. 

Autores como Gonçalves Dias, na poesia, e José de Alencar, na prosa – sobretudo na fase indianista de suas produções – ajudaram a forjar a imagem do índio como o primeiro grande representante do passado histórico brasileiro e protótipo do herói nacional, e buscaram também descrever as paisagens pitorescas do país, como uma estratégia de afirmação das cores locais, com urgência ufanista, pois era preciso superar – pelo menos no plano literário e simbólico – as dificuldades sociais e políticas herdadas do colonialismo.

Alguns dilemas que marcaram a primeira geração romântica, com problemas graves, oriundos da força do poder agrário que era sustentado pela tríade: latifúndio, escravismo e economia de exportação: como o país recém-independente ainda vivia em meio a essas questões inconciliáveis, coube aos escritores românticos a busca pela harmonização, no plano do discurso, da situação de crise social e política vivenciada pela pátria. 

Um país livre sustentado por um regime escravocrata era um dilema quase insolúvel. Nesse sentido, o silêncio em torno da contribuição da cultura negra tanto para a literatura quanto para a formação da nacionalidade brasileira do período é compreensível – não nos esqueçamos que a fuga da realidade foi uma das características marcantes do estilo romântico.

O crítico Roberto Acízelo de Souza, por exemplo, aponta o período que vai do ano de 1805 até o de 1888 como a época da formação do campo da História da Literatura Brasileira. Para chegar a tais datas, o estudioso elegeu – sem, no entanto, assumir posição dogmática – como marco referencial os seguintes episódios: a menção dos nomes de Antônio José da Silva e Cláudio Manuel da Costa, escritores nascidos no Brasil, na obra do alemão Friedrich Bouterwek e a publicação de “História da literatura brasileira, de Sílvio Romero, trabalho que, pela abrangência e fundamentação conceitual, atesta a consolidação da disciplina” (SOUZA, 2007, p. 29). 


     3) A Contribuição dos Autores Estrangeiros 

Segundo Roberto Acízelo de Souza, as práticas historiográficas estrangeiras podem ser classificadas em cinco categorias:
  • A primeira categoria envolve obras, que apesar de, formalmente, pertencerem ao corpo de estudos dedicados à Literatura Portuguesa, se ocupam de autores brasileiros. São eles: o volume Geschichte der Portugiesischen Poesie und Beredsamkeit, (1808) de Friedrich Bouterwek, as obras: De La Littérature Du Midi de L´Europe (1813), do suíço Simonde de Sismondi; Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa – introdução da antologia Parnaso lusitano (1826), do português João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett. 
  • A segunda categoria, apesar de desenvolver de maneira mais profunda a História da Literatura Brasileira e de lhe atribuir um tratamento mais independente, ainda vai enquadrá-la como um apêndice da História da Literatura Portuguesa. O trabalho mais expressivo no gênero é o Résumé de L´Histoire Littéraire du Portugual, Suivi du Résumé de L´Histoire Littéraire du Brésil (1826), de Ferdinand Denis. 
  • A terceira categoria colocou, pela primeira vez, a Literatura Brasileira como objeto exclusivo de estudos de críticos estrangeiros. Destacam-se neste grupo dois trabalhos: o ensaio “De La Poesia Brasileña” (1855), do espanhol Juan Valera, publicado na Revista Espanhola de Ambos os Mundos, e a obra de Eduardo Perié publicada em Buenos Aires – porém, editada em português –, intitulada: A Literatura Brasileira nos tempos coloniais: do século XVI ao começo do XIX – esboço histórico seguido de uma bibliografia e trechos dos poetas e prosadores daquele período que fundaram no brasil a cultura de língua portuguesa (1885). 
  • A quarta categoria abrange estudos de caráter marcadamente mais crítico e menos historiográfico. Mesmo assim, tais trabalhos devem ser encarados como relevantes contribuições estrangeiras, em função de abordarem em seu escopo a Literatura Brasileira. Destacam-se nessa categoria os seguintes estudos: do alemão C. Schlichthorst, o capítulo do livro Rio de Janeiro wie es ist (1829); o artigo do português Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, intitulado “Futuro literário de Portugal e do Brasil”, publicado na Revista Universal Lisboense (1847-1848) e, do também português José da Gama e Castro, uma carta-resposta a um leitor do Jornal do Commercio, em forma de ensaio (1842). 
  • A quinta categoria é formada pelo primeiro estudo exclusivamente dedicado à História da Literatura Brasileira. Le Brésil Littéraire: Histoire de La Litterature Brésilienne (1863), do austríaco Ferdinand Wolf. Tanto Wolf quanto o francês Ferdinand Denis tiveram um papel relevante na formação do pensamento crítico nacional do período. Ambos procuravam incentivar, através de suas obras, os estudiosos brasileiros a adotarem uma perspectiva nacionalista na produção crítica e literária da época. Tornou-se importante referência didática, pela circunstância de sua obra – escrita originalmente em alemão, depois traduzida para o francês e publicada em Berlim sob os auspícios do imperador Pedro II – figurar entre os compêndios adotados na escola brasileira do século XIX (SOUZA, 2007, p. 32). 

     4) A Contribuição dos Autores Nacionais 

São, também, cinco categorias:

     a) Antologias de poesias (também chamadas de parnasos ou florilégios), e histórias literárias propriamente ditas, chamadas à época de “cursos” e “resumos” (preocupadas fundamentalmente com a exposição de um painel de cada período literário): 
  • o trabalho pioneiro foi o Parnaso Brasileiro (1829-1832), de Januário da Cunha Barbosa; 
  • obras mais sólidas, em torno de prólogos amplos e informativos : Parnaso brasileiro (1843-1848), de João Manuel Pereira da Silva, o Mosaico poético (1844), de Joaquim Norberto de Sousa Silva e Emílio Adet e o Florilégio da poesia brasileira (1850- 1853), de Francisco Adolfo Varnhagen; 
  • sem prólogos de valor historiográfico, contando apenas com informações gerais sobre os autores selecionados – o caso de Meandro poético (1864), de Joaquim Norberto de Sousa Silva; o Curso de Literatura Brasileira (1870) (apesar do título, configurava-se como uma antologia) e um terceiro Parnaso brasileiro (1885), de Alexandre José de Melo Morais Filho. 

     b) Ensaios (declarações de princípios sobre a ideia de Literatura Brasileira), efetuou tanto revisões do passado literário quanto considerações sobre seu presente, bem como prognósticos para o futuro da Literatura nacional. Os ensaios produzidos durante o período romântico obedeceram a princípios nacionalistas, que exigiam a afirmação das características locais como um mecanismo de superação do período colonial, tão caro ao país: 
  • Domingos José Gonçalves de Magalhães, com seu “Ensaio sobre a História da Literatura Brasileira” (1836) – publicado originalmente em Paris, na Revista Niterói, com o objetivo de divulgar o Romantismo no Brasil –, figura como o principal articulador da modalidade; 
  • Santiago Nunes Ribeiro, que deixou como legado dois ensaios, intitulados: “Da nacionalidade da Literatura Brasileira” (1843). Ambos os trabalhos foram publicados na revista Minerva Brasiliense, periódico carioca dedicado à difusão do ideário romântico no Brasil. 
   
   c) Galerias (coleções de biografias), concentrou seus esforços na tarefa de organizar coleções de biografias de autores ilustres: 
  • João Manuel Pereira da Silva com seu Plutarco brasileiro (1847). A obra sofreu alterações significativas, vindo a ser reeditada mais tarde sob o título de Varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais (1856 e 1868); 
  • Biografias de alguns poetas e homens ilustres da província de Pernambuco (1856-1858); 
  • Joaquim Norberto de Sousa Silva, brasileiras célebres (1862); 
  • Antônio Henriques Leal, Panteon maranhense (1873-1875). 

   d) Edições de textos (em geral, acompanhadas por breves biografias, críticas e notas explicativas): 
  • Francisco Adolfo Varnhagen se empenhou nas edições dos poemas setecentistas, “O Uraguai, (1769), de José Basílio da Gama”, e Caramuru (1781), de José de Santa Rita Durão, ambos reunidos no livro Épicos brasileiros (1845), sendo responsável também pelas edições de autores do período colonial, tais como: Bento Teixeira (poesia), Vicente do Salvador, Ambrósio Fernandes Brandão e Gabriel Soares de Sousa (prosa); 
  • Joaquim Norberto de Sousa dedicou-se às edições de poetas do século XVIII: Gonzaga (1862), Silva Alvarenga (1864), Alvarenga Peixoto (1865), Gonçalves Dias (1870), Álvares de Azevedo (1873), Laurindo Rabelo (1876) e Casimiro de Abreu (1877); 
  • Alfredo do Vale Cabral foi o responsável pela edição do primeiro volume das obras de Gregório de Matos, dedicado às sátiras (1882). 

   e) Histórias literárias, também chamadas à época de “cursos” e “resumos” (preocupadas fundamentalmente com a exposição de um painel de cada período literário), foram idealizadas com a finalidade de servirem de material didático para as instituições de ensino: 
  • Curso elementar de literatura nacional (1862), de Caetano Fernandes Pinheiro, trata da Literatura Brasileira e da Portuguesa, é que, segundo [o autor], só haveria Literatura Brasileira distinta da Portuguesa a partir da Independência e do Romantismo. (SOUZA, 2007, p. 36); 
  • Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira (1866-1873), de Francisco Sotero dos Reis, dedica parte do quarto e quinto volumes ao exame da Literatura nacional. Ele inicia suas análises a partir dos poetas do século XVIII, a quem classificava de precursores e considerava apenas os escritores da fase pós-Independência como autores efetivamente brasileiros.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Literatura Brasileira I - Resumo da Aula 1: História da Literatura Brasileira, Historiografia da Literatura Brasileira e... outras histórias


Professores Igor Graciano e André Dias 

1) Diferenciando História de Historiografia (Literatura Brasileira) 

Segundo Roberto Acízelo, em sua obra Introdução à Historiografia da Literatura Brasileira:

a) História da Literatura (visão histórico-cultural) pode ser compreendida como “o fenômeno constituído pelos desdobramentos e transformações no tempo de uma entidade chamada Literatura Brasileira” (p. 10), ou seja: devemos ter em mente que estamos lidando com o segmento dos estudos literários que concentra suas preocupações em apresentar as origens e o desenvolvimento da Literatura nacional;

b) Historiografia da Literatura (perspectiva da individualidade estética) designa “o corpo de obras consagradas ao estudo desse fenômeno” (p. 10) , ou seja: corresponde ao esforço dos mais variados grupos de estudiosos da área literária que buscaram e, ainda hoje, buscam construir trabalhos de natureza crítica e teórica sobre o tema. 


2) Por uma concepção de História da Literatura Brasileira 

Quadro Sinótico em duas grandes eras:

a) Era Colonial, que procura abarcar as manifestações literárias ocorridas durante o período colonial brasileiro, contendo os períodos literários designados como: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo. 

b) Era Nacional, que busca acompanhar o desenvolvimento da Literatura Brasileira desde os primeiros passos hesitantes do novo país que procurava se estabelecer após a independência de Portugal até o presente, contendo os períodos: Romantismo, Realismo/Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, a fase de transição qualificada como Pré-Modernismo, o Modernismo e as chamadas tendências da Literatura contemporânea – um “guarda-chuva” que abarca as mais diversas manifestações literárias. 

Obs: Pioneirismo foi o trabalho do historiador e ensaísta Francisco Adolpho de Varnhagen. Com a publicação de Épicos brasileiros (1845) e Florilégio da poesia brasileira (1851-1853), o historiador teve o mérito de ter sido “o primeiro brasileiro a empreender uma obra rigorosa e pensada de erudição e coleção de textos” (CANDIDO, 1988, p. 19). 


3) Por uma concepção de Historiografia da Literatura Brasileira 

O historiógrafo tem como preocupação principal lançar um olhar crítico sobre a produção literária de um determinado escritor ou sobre o trabalho de um grupo deles. Entretanto, é imprescindível compreender que todo crítico constrói seu trabalho a partir de uma fundamentação teórica, e que esta é sempre responsável por orientar e conduzir suas reflexões sobre a Literatura.

É muito importante ter em mente que as atribuições do historiador e do historiógrafo da Literatura, em muitos momentos, podem convergir sem provocar qualquer conflito de interesses: “Em um livro de crítica, mas escrito do ponto de vista histórico, como este, as obras não podem aparecer em si, na autonomia que manifestam, quando abstraímos as circunstâncias enumeradas; aparecem, por força da perspectiva escolhida, integrando em dado momento um sistema articulado e, ao influir sobre a elaboração de outras, formando, no tempo, uma tradição (CANDIDO, 1981, p. 24). “

Obs.: O crítico britânico Terry Eagleton, em sua obra Teoria da Literatura: uma introdução (1997), discorre sobre as três definições de Literatura mais recorrentes no século XX. São elas: 1) a Literatura como “escrita imaginativa”, no sentido de ficção – escrita que não é literalmente verídica; 2) Como linguagem trabalhada para causar “estranhamento”, afastando-se, assim, da linguagem comum do dia a dia; 3) como linguagem “autorreferencial”, isto é, uma linguagem que fala de si mesma.

Porém são respostas insuficientes, pois nem todos os textos considerados literários, portanto, cabem nas três definições indicadas. A conclusão a que se chega é que não há uma essência da Literatura, ou seja, uma característica ou grupo de características comuns a todas as obras que nos habilite a considerá-las como especificamente literárias. Para o teórico inglês, em sua obra Teoria da Literatura, isso “significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria ‘literatura’ é ‘objetiva’, no sentido de ser eterna e imutável”.

Se há uma divisão vigente entre textos literários e não literários, essa divisão se dá a partir de critérios historicamente construídos, de modo que um texto tido como literário hoje pode não o ser amanhã... Um bom exemplo disso é a carta de Pero Vaz de Caminha, que não sendo Literatura no momento de sua escrita, tornou-se posteriormente Literatura, pelo trabalho crítico de algumas historiografias literárias, sendo, finalmente, inserida no cânone literário como texto fundador da Literatura nacional.

Diante desses argumentos, conclui-se que qualquer definição sobre o que seja ou não Literatura é carregada de historicidade, isto é, um conjunto de critérios legitimados pelos valores de seu tempo e grupo social que “escolhem” um corpus de textos como sendo literário em detrimento de outro ou de corpus tidos como não literários. As historiografias literárias, como visto anteriormente, têm um papel fundamental na constituição desse corpus, ao qual, no nosso caso particular, chamamos de Literatura Brasileira.

“Não existe uma obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si, a despeito do que se tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. "Valor" é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos (EAGLETON, 1997, p. 16). “

Portanto, a historiografia e seus resultados dependem do ponto de vista de quem a pratica, de modo que, assim como há diferentes opiniões individuais sobre um mesmo acontecimento, a análise crítica do conjunto de textos da Literatura Brasileira repercute os valores do grupo sociocultural a que o historiador pertence, o que torna o mar da Historiografia quase tão vasto em possibilidades quanto o da própria Literatura para a qual ela se volta.