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domingo, 10 de abril de 2016

Linguística II - AD1

Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Universidade Federal Fluminense
Curso de Licenciatura em Letras- UFF / CEDERJ
Disciplina: LINGUÍSTICA II
AD 1 - 2016/ 1


Aluno(a): Marcelo Pavesi Lopes
Matrícula: 15213120046
Polo: Itaperuna - RJ



OBSERVAÇÃO: ao apresentar suas respostas, atenda explicitamente ao conteúdo que é abordado na questão; cada pergunta tem o objetivo verificar sua maneira de pensar sobre o problema apresentado e não pode ser respondida com a mera transcrição de conceitos presentes em seu material didático ou em qualquer outra fonte.


QUESTÃO 1

Defina o conceito de língua que está sendo usado nos itens a e b explique-os de acordo com a teoria gerativa. 3,0 pontos

a. “Posso viajar para Portugal que consigo me comunicar muito bem. Na verdade, demora um pouquinho até eu me adaptar a alguns sons, mas de repente começo a entender tudo.”

b. “É impressionante que meu filho, com menos de dois anos, já fale tantas coisas, quase tudo! A filha da minha amiga tem a mesma idade e não fala quase nada. Já disse pra ela que cada criança tem um ritmo”.

A Língua Portuguesa, bem como todas as línguas nativas da humanidade, sob o ponto de vista do Gerativismo, encontra-se em duas dimensões distintas, porém intercomunicantes: como uma habilidade cognitiva inata na mente dos falantes dessa língua (dimensão subjetiva) e no seio das sociedades (no caso da Língua Portuguesa, as comunidades lusófonas) como um código linguístico compartilhado (dimensão objetiva).
Noam Chomsky, principal formulador da teoria gerativa, propôs a seguinte nomenclatura: língua como faculdade cognitiva chamou de Língua-I e à língua como código compartilhado, Língua-E.
A justificativa para o uso do termo Língua-I é que ela é Interna, Individual e Intensional (algo interno e próprio a um dado significado). Para a Língua-E, trata-se do fato da mesma ser Extensional (por extensão aos objetos a que os significados se referem).
Na questão proposta, a letra “a” explicita as características da Língua-E, ou seja, pois o código compartilhado naquela comunidade tem similaridades muitas com o código do Brasil, uma vez que uma língua, a brasileira, como que descende da outra, a língua mãe portuguesa. A dificuldade inicial para entender a língua portuguesa deve-se às poucas dessemelhanças de uso de palavras típicas ou de prosódia, quando se compara as duas Línguas-E supracitadas.
Por outra lado, na letra “b”, temos uma criança começando a formatar o seu módulo da linguagem interno à mente, sua Língua-I, fato que ocorre na mais tenra idade, notando-se que isso ocorre de forma individual, pois cada um tem o seu ritmo.
QUESTÃO 2

Qual a importância da língua E para um gerativista? 2,0 pontos

A inserção da cognição humana como elemento fundamental no processo de comunicação se deve ao advento da Teoria Gerativista. Ou seja, poderíamos pensar que somente a Língua-I seria do interesse daquele ramo da Linguística, por ser a dimensão interna da linguagem, individualizada na mente humana.
Porém, a Língua-E, que não é um monolito indivisível, mas dotada de nuances características e singulares que devem ser esmiuçadas pelo Linguista sob o viés do Gerativismo.
A Língua-E, esse código linguístico, cujo léxico é compartilhado pelos membros de determinada comunidade, é composto de palavras representantes dos mais diversos objetos concretos e abstrados componentes do mundo na qual essa coletividade está inserida.
Assim, devem ser estudados, na Língua-E: os sons das palavras (fonemas e fones), as classificações morfológicas e sintáticas presentes nesse léxico (classes de palavras, gêneros gramaticais, tempo e modos verbais), os usos e costumes da língua convencionados e aceitos, tais como as expressões mais utilizadas, ou as que caíram em desuso, entre outros aspectos. Resumindo, os componentes principais seriam: fonemas, morfemas, palavras, sintagmas, frases e discursos.
Estuda, ainda, como o módulo mental da linguagem nos humanos pode absorver essas diferentes singularidades codificadas no léxico, para poder produzir entender e formular uma forma de expressão comunicativa de uso pragmático da linguagem no dia a dia.
Então, podemos afirmar que a Língua-E tem muita relevância para o estudo da Linguagem, pelos princípios gerativistas, pois são duas as dimensões a serem estudadas: a subjetiva (Língua-I) e a objetiva (Língua-E).


QUESTÃO 3

Quando escutamos a palavra “cabeça‟, temos muitas informações sobre ela.
Identifique as competências linguísticas responsáveis pelas habilidades descritas e relacione essas competências com a modularidade da linguagem. 2,0 pontos:

Um dos conceitos basilares das ciências cognitivas é o princípio de Modularidade da Mente Humana, segundo o qual a mente não seria um todo indivisível, não seria uma ferramenta única de várias possibilidades de utilização, mas dotada de módulos especializados, porém inter-relacionados, para a execução de atividades específicas.
Dentre esses módulos, que poderiam ser fracionados em submódulos, temos o denominado Módulo da Linguagem. Abaixo, correlacionaremos cada assertiva ao submódulo da Linguagem que a representa:

a. Sabemos que podemos criar cabeçudo, cabeção, encabeçar etc;
A criação de palavras novas através da manipulação de morfemas, que são constituintes internos das palavras com presença de significado (como o caso das variações supracitadas, em torno da palavra “cabeça”), é presidida pelo Módulo Morfológico, com a competência para criar e compreender novas palavras.


b. Sabemos que podemos formar expressões como “o cabeça do time‟, usar como sujeito ou objeto de uma sentença;
Com complexidade e dinamismo ímpares, o Módulo Sintático permite que construamos e interpretemos frases e sintagmas os mais diversos e inumeráveis, sendo uma das características mais relevantes da Linguagem Humana. A função de um sintagma é identificada por esse módulo, então: determinar o sujeito ou objeto de uma sentença é habilidade desse submódulo da Linguagem, bem como, a construção de expressões usando esses componentes básicos também.


c. Sabemos que quando alguém diz que “encabeçou um movimento‟ não significa colocar a cabeça literalmente na ação, mas quer dizer que a pessoa liderou, estava à frente do movimento.
As mais diversas expressões linguísticas (palavras, sintagmas e frases) como “encabeçou um movimento” são geradas e identificadas pelo Módulo Semântico. Sabemos o significado das expressões construídas na língua, devido à atuação desse módulo da linguagem. A construção dessa expressão analisada e a sua identificação verdadeira dá-se pelo Módulo Semântico.


d. Sabemos que em algumas situações discursivas “cabeçudo‟ pode significar “aquele que tem a cabeça grande‟, mas em outras pode significar “pessoa inteligente‟.
Analisarei esta questão, com uma amplitude maior do que as anteriores, buscando formular uma atuação conjunta dos módulos mentais da linguagem, o que seria o contexto mais próximo da realidade da mente.
A riqueza do conceito modular da mente humana não se limita nisso. Ainda, há uma característica maravilhosa, que é a possibilidade de integração entre esses módulos, fazendo com que haja uma ação conjunta entre eles, como nesse caso, elevando à enésima potência a utilização da mente humana, através da combinação entre os módulos e submódulos. Observe o caso exposto.
O armazenamento e recuperação das palavras é característica do Módulo Lexical. Ele é um dos mais importantes para o estudo gerativista da Linguagem, está em formação na infância e, na idade adulta, permite-nos emitir e reconhecer itens lexicais, além da pronúncia e do contexto de uso. No exemplo acima, o significado e o contexto de uso do item lexical “cabeçudo” só é devidamente resgatado pela ação desse módulo em nossa mente. Nele está armazenado a palavra “cabeçudo” e suas características principais. Porém, como os submódulos da Linguagem não são estanques, mas se relacionam e auxiliam, poderíamos citar o Módulo Pragmático, que trabalha voltado para o contexto prático, cuja atuação nesse caso se revela imprescindível. Além disso, poderíamos acrescentar, para sabermos o significado, dentro dos limites linguísticos, uma pitada de Módulo Semântico, que nos permitiria identificar todas as definições de sentido da palavra em voga.
A palavra “cabeçudo” foi expressa em uma situação discursiva, devemos imediatamente identificar, situar e contextualizar na mesma, através de fatores extralinguísticos presentes no ato comunicativo, a intenção comunicativa. No caso exposto, somente esses fatores permitirão, após resgatarmos as definições possíveis de “cabeçudo” pelo Módulo Lexical, selecionarmos, pela identificação das nuances extralinguísticas envolvidas, que não estão inseridas na frase citata, mas pululam no contexto comunicacional, usando o Módulo Pragmático a situação presente no contexto comunicacional: se a picardia depreciativa de rotularmos uma pessoa como “aquele que tem a cabeça grande”; ou a admiração informal por nos depararmos com uma “pessoa inteligente”.
Ressalto, por fim, que nesse caso específico, pela presença de situações extralinguísticas, apesar da utilização de outros módulos, o mais proeminente ator, o decisivo para a eficiente ação comunicacional seria o Módulo Pragmático.



QUESTÃO 4
Meu filho tem um ano e seis meses e é incrível como ele já produz coisas surpreendentes. Às vezes, me pergunto onde ele aprendeu. Além de saber muitas palavras e as usar adequadamente, ele emprega perfeitamente os verbos, objetos e sujeitos nas sentenças. Eu não ensinei isso a ele, nem sei se alguém ensina isso às crianças. Ele já sabe até usar o plural nos nomes, e repete o processo em palavras novas!”
Relacione esse depoimento com o argumento da pobreza de estímulo. 2,0 pontos

“Eu nem ensinei isso a ele, nem sei se alguém ensina isso às crianças” e “repete o processo em palavras novas” são os trechos que destaco no texto acima, para fazermos a reflexão que segue.
O filósofo galês Bertrand Russel interpretou magistralmente as palavras de Platão a respeito da incrível capacidade humana de adquirir e armazenar conhecimentos e habilidades, diante da brevidade do processo existencial da vida.
Se parafrasearmos Platão poderíamos, em nosso campo de estudo linguístico, usar a mesma perplexidade para a surpreendente capacidade que os humanos, mormente na fase infantil, têm de aprender todos os aspectos necessários para o uso correto de uma língua, advindos do meio social no qual estão inseridos.
É de fundamental importância, que à diferença de um sistema de computação, venhamos a evoluir em nossos conhecimentos como um moto contínuo, pois temos uma inata capacidade de aprender, e até de aprender a aprender, reformulando as estratégias de aprendizagem.
Mas, a simples imersão na comunidade, em presença de processos comunicativos por mimetismo ou instrução orientada (a mãe acima questiona: “nem sei se isso alguém ensina isso às crianças”), é insuficiente para esclarecer a aquisição tão rápida de competência linguística por parte do seres humanos, segundo o afamado gerativista Noam Chomsky.
Contrapondo aos Sofistas e sua teoria limitada da “tabula rasa”, que afirma sermos como uma folha em branco ao nascimento, e com os estímulos promovidos pelo contato com os outros falantes em nossa sociedade, venhamos a adquirir a competência comunicativa através da língua, Chomsky afirma ser finita a profusão de estímulos externos recebidos, enquanto a capacidade de produzir frases e discursos, após determinado tempo, é inumerável. É o mesmo que, por outras palavras, a surpreendida mãe afirma no trecho: “repete o processo em palavras novas”.
A criança não é um mero papagaio repetidor do que aprendeu mecanicamente, mas usa a criatividade para produzir um discurso único e exclusivo. Para Chomski é impossível criar uma competência linguística com capacidade infinita de produzir comunicação, apenas com o recebimento de finitos estímulos. Ou seja, a mãe intui que há um mecanismo entre o que a criança recebe de informação e o que ela consegue fazer com sua faculdade da linguagem que, como um filtro transformador, mude de finito para infinito, o processo comunicacional na mente humana.


Ainda, o grande formulador da teoria Gerativa afirma não ser possível que apenas os estímulos externos, limitados que são por não possuírem notadamente todas as informações necessárias, produzirem esse caleidoscópio complexo e multifacetado da linguagem humana, em sua capacidade criativa e renovável de produzir discursos inéditos. O argumento da pobreza de estímulo preconiza ser por causa da inata “máquina de aprender” que a criança possui, a possibilidade de acontecer essa “mágica” que surpreendeu a mãe no contexto supracitado. Essa “máquina” pode ser traduzida como uma capacidade de selecionar a relevância das informações recebidas e uma sabedoria ao utilizá-las devidamente, quando as crianças vão, paulatinamente, descortinando o mundo.

Português II - AD1

Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de
Janeiro
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Universidade Federal Fluminense
Curso de Licenciatura em Letras- UFF / CEDERJ

Disciplina: Português 2
Coordenador: Gerson Rodrigues

AD1 - 2016/ 1


Aluno(a): Marcelo Pavesi Lopes
Polo: Itaperuna – RJ Matrícula: 15213120046
Nota: 10,0


Questão 1.
Observe o trecho de reportagem do Jornal O Estado de São Paulo:

Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,filha-de-chavez-pede-que-povo-da-venezuela-ore-pelopresidente,
004548,0.htm Acesso em 05/03/2012

Filha de Chávez pede que povo da Venezuela ore pelo presidente

Governo venezuelano anunciou que problemas respiratórios do líder bolivariano pioraram

CARACAS - María Gabriela Chávez, uma das filhas do presidente venezuelano, Hugo Chávez, agradeceu as mensagens de solidariedade transmitidas ao seu pai e pediu aos venezuelanos, por meio de sua conta no Twitter, que orem pela saúde do líder bolivariano. "Todo meu amor a vocês! Estamos nas mãos de Deus! Venceremos!"
Na noite de segunda-feira, o governo da Venezuela informou que os problemas respiratórios de Chávez tinha piorado e ele estava sofrendo de uma nova infecção respiratória "severa".
O líder socialista, de 58 anos, passou quase três meses sem ser visto nem ouvido em público desde que se submeteu à operação para tratar um câncer em Cuba no início de dezembro. Foi a quarta cirurgia desde que a doença foi diagnosticada, em meados de 2011.
"Hoje, há uma piora de sua função respiratória relacionada com seu estado de imunodepressão próprio de sua situação clínica.… existe agora uma nova e grave infecção", disse o ministro da Informação, Ernesto Villegas, lendo o mais recente comunicado oficial sobre a condição do presidente.
Chávez fez um surpreendente retorno à Venezuela durante a madrugada há duas semanas, sem a festa e celebração que marcaram seus retornos anteriores do tratamento em Havana. O governo disse que ele agora está lutando por sua vida em um hospital militar de Caracas. Guardas armados montaram um forte esquema de segurança do lado de fora.
"O presidente tem recebido quimioterapia de forte impacto, entre outros tratamentos complementares...seu estado geral continua sendo muito delicado", afirmou Villegas.
Chávez sofreu várias complicações após a cirurgia do dia 11 de dezembro, incluindo um sangramento inesperado e uma outra infecção respiratória grave, que as autoridades disseram ter sido controlada. O governo disse que ele tinha dificuldade para falar porque estava respirando através de um tubo traqueal, mas que estava dando ordens a ministros por escrito.
"O comandante-presidente permanece apegado a Cristo e à vida, consciente das dificuldades que está enfrentando, e cumprindo rigorosamente o programa criado por sua equipe médica", disse Villegas.
Após uma missa emocionada no hospital militar na sexta-feira, o vicepresidente Nicolás Maduro -sucessor indicado por Chávez caso ele seja incapaz de continuar como presidente - disse que o presidente decidiu por si mesmo vários dias antes que iria voltar de Cuba para a Venezuela. Chávez começaria uma fase "mais forte e intensa" de seu tratamento, afirmou Maduro, me queria estar em Caracas.
Caso o líder venezuelano renuncie ou venha a falecer, uma eleição seria realizada dentro de 30 dias e, provavelmente, colocaria Maduro contra o líder da oposição Henrique Capriles, que perdeu para Chávez na eleição presidencial em outubro.

Questão 1 (3,0)

Leia o trecho:

Após uma missa emocionada no hospital militar na sexta-feira, o vicepresidente Nicolás Maduro - sucessor indicado por Chávez caso ele seja incapaz de continuar como presidente - disse que o presidente decidiu por si mesmo vários dias antes que iria voltar de Cuba para a Venezuela. Chávez começaria uma fase "mais forte e intensa" de seu tratamento, afirmou Maduro, e queria estar em Caracas.

a) No trecho há duas ocorrências de sujeito oculto. Explique o porquê da utilização desse tipo de sujeito pelo autor.

Trechos com o sujeito oculto:

1) “...que iria voltar de Cuba para a Venezuela.”
2) “...e queria estar em Caracas.”

Apesar de não constar da Nomenclatura Gramatical Brasileira, o sujeito oculto, também chamado desinencial ou elíptico, tem sido registrado, de forma relevante, em muitas gramáticas brasileiras.
Esse tipo de sujeito pode ser identificado através de duas formas: pela identificação da desinência verbal ou pela presença do sujeito no contexto anterior.
Nos casos em destaque nesta questão, temos a segunda opção. Vejamos o contexto anterior aos sujeitos ocultos pesquisados:

1) “o presidente decidiu por si mesmo vários dias antes que iria voltar de Cuba para a Venezuela.
2) “Chávez começaria uma fase "mais forte e intensa" de seu tratamento, afirmou Maduro, e queria estar em Caracas.”

Os sujeitos simples das orações anteriores “o presidente” e “Chavez” também atuam, ocultos, como sujeitos das orações grifadas e analisadas, respectivamente, conclusão a que se chega pela análise de todo o contexto do segmento de texto analisado.
Essa estratégia de escrita traz uma eficiência considerável, pois evita repetições, tornando o texto mais sintético.


b) Faça uma tabela de, pelo menos, três autores diferentes com as definições de sujeito oculto e com os diferentes nomes atribuídos por cada um.

Autor/Bibliografia
Definição de Sujeito Oculto
José Carlos de Azeredo – Gramática Houaiss da Língua Portuguesa (páginas 224 e 225)

AZEREDO, J. C. de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2014.
É chamado de ELIPSE DO SUJEITO, quando o lugar do sujeito está vazio, mas sua existência segue assinalada de duas formas: na flexão verbal ou no sujeito antecedente de frase anterior
Celso Cunha & Lindey Cintra – Nova Gramática do Português Contemporâneo (páginas 141 e 142)

CUNHA, C; CINTRA, L. Gramática do português contemporâneo. 6.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2013.
Classificado como SUJEITO OCULTO (DETERMINADO), é aquele que não está materialmente expresso na oração, mas pode ser identificado pela desinência verbal ou pela presença do sujeito em outra oração do mesmo período ou de período contíguo
Evanildo Bechara – Moderna Gramática Portuguesa (página 409 e 592)


BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. 37 ed. rev., ampl, e atual, conforme o novo Acordo Ortográfico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Evanildo Bechara, discorda completamente, e analisa sob uma outra vertente, refutando a existência uma elipse do sujeito, e ressaltando o fato de não ser mais, exigência gramatical, a explicitação do sujeito:


Vê-se, então, que não se pode falar, a rigor, de elipse do sujeito, quando aparece apenas o núcleo verbal da oração, já que ele aparece sempre presente na forma verbal flexionada no morfema que representa o sujeito gramatical (1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas, do singular ou plural). Trata-se, pelo contrário, da sua expansão ou não, mediante o sujeito explícito, fato que não está mais na exigência da gramática (quando há, é claro”, relação predicativa referida, mas do texto, para a transmissão efetiva e clara da mensagem).” (página 409)
Assim, não se há de considerar elipse a omissão do sujeito léxico já que ele está indicado na desinência verbal, o sujeito gramatical. A necessidade de explicitação do sujeito
gramatical mediante um sujeito explícito é ditada pelo texto; a rigor, portanto, não se trata da “elipse” do sujeito, mas do “acréscimo” de expressão que identifique ou explicite a que se refere o sujeito gramatical indicado na desinência do verbo finito ou flexionado. Em português, salvo nos casos de ênfase ou contraste, não se explicita o sujeito gramatical mediante os pronomes sujeitos de 1.a e 2.a pessoas do singular e do plural:

Sairei depois do almoço (desnecessário: Eu sairei...)
Foste contemplado na crítica (desnecessário: Tu foste…)

Mas:

Eu sairei, e tu ficarás.” (página 592)



Questão 3 (2,0)

Ainda sobre o trecho anterior, há a ocorrência de um predicativo do sujeito. Identifique essa ocorrência e diferencie predicativo do sujeito e predicativo do objeto, apresentando exemplos

A ocorrência de predicativo do sujeito está exposta abaixo, sendo “seja” o verbo de ligação, caracterizando o predicado nominal. Enquanto o trecho: “incapaz de continuar como presidente”, o predicativo que qualifica o Sujeito “ele”:

...caso ele seja incapaz de continuar como presidente...”
Enquanto o predicativo do sujeito pertence ao predicado nominal, sendo o seu núcleo, atribuindo uma qualidade, singularidade ou característica ao sujeito; o predicativo do objeto apresenta duas características básicas: acompanha o verbo de ligação implícito e pertence ao predicado verbo-nominal, qualificando o objeto direto do verbo em questão.

- Exemplo de Predicativo do Sujeito (Predicado Verbal):

Ela entrou em casa apressada.
(VL) (Predicativo do Sujeito, qualifica o sujeito “Ela”)
VL = Verbo de Ligação

- Exemplo de Predicativo do Objeto (Predicado Verbo-nominal)

Ela viu um homem apressado.
(VTD) (Objeto Direto) (Predicativo do Objeto, qualifica o objeto direto: “um homem”)
VTD = Verbo Transitivo Direto

Questão 4

A partir da leitura do excerto que segue, faça o que se pede
.
A demora na votação da pena dos mensaleiros acaba sendo uma boa para os condenados. Sem Ayres Britto, que se aposenta na semana que vem, o grupo que está votando com Joaquim Barbosa perde um integrante, enquanto que a turma de Ricardo Lewandowski segue sem defecções.”

a) Temos no trecho duas frases que podem ser chamadas de periodo. A definição de frase e periodo são sempre coincidentes? Em caso negativo, explique como se diferenciam. (1,5)

Podemos definir frase como um enunciado comunicativo com sentido completo, capaz de, dotadas de entoação (na linguagem escrita aparece como sinais de pontuação) própria, e acompanhadas de gestos peculiares, satisfazer as necessidades expressivas do comunicante, podendo possuir verbo ou não (frase nominal). A frase se define pelo propósito de comunicação, e não pela sua extensão.
A definição de Período contempla a composição por uma ou mais orações. A oração é definida como uma estrutura verbal, contém obrigatoriamente verbo em seu bojo. Então, o período, que é composto de oração, uma ou mais, diferencia-se da frase por possuir verbo, sempre. Já, a frase pode ser apenas nominal, quando não possui a presença do verbo.
O Período é uma frase que possui uma ou mais orações e, por extensão, um ou mais verbos. Então, como temos frases sem verbos, chamadas frases nominais, as definições de frase e período nem sempre são coincidentes.

b) A expressão “uma boa” é um predicativo do sujeito. Que tipo de palavra exerce a função de núcleo em um predicativo? (1,0)

As classes de palavras que assumem a função de predicativo do sujeito são do tipo: substantivo (ou expressão substantivada), adjetivo (ou locução adjetiva), pronome, numeral e Oração Substantiva Predicativa.

c) Na frase “A demora na votação da pena dos mensaleiros acaba sendo uma boa para os condenados” que tipo de predicado encontramos? Explique como se faz essa identificação do predicado. (1,5)

Trata-se de um Predicado Nominal, pois possui uma locução verbal (ou locução perifrásica = verbo auxiliar/acaba + verbo no gerúndio/sendo) com função de verbo de ligação (cujo principal função é conectar o sujeito e o predicativo do sujeito, estabelecendo entre ambos a concordância número-pessoal devida – “A demora”, núcleo do sujeito, concorda com “boa”, predicativo do sujeito), sendo que o adjetivo “boa” é um qualificador do sujeito: “A demora na votação da pena dos mensaleiros”, cujo núcleo está em destaque.
Então, podemos destacar como características que nos fazem afirmar ser um Predicado Nominal: verbo de ligação atuando como ponte entre o sujeito e o núcleo do predicado: o predicativo do sujeito.

d) A expressão “para os condenados” exerce que função? Explique como você a identificou. (1,0)

É um Complemento Nominal, que pode ser definido como um termo que complementa o sentido de uma palavra que não seja verbo. Assim, pode referir-se a substantivos, adjetivos ou advérbios, sempre por meio de preposição, no caso a preposição: “para”.

Assim, a expressão supracitada (“para os condenados”) complementa o adjetivo, com função de predicativo do sujeito, “boa”, presente no trecho em análise.

Literatura Brasileira I - AD1


Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro
Universidade Federal Fluminense
Curso de Licenciatura em Letras- UFF / CEDERJ
Disciplina: Literatura Brasileira 1
Coordenador: André Dias
AD 1 – 2016.1

Aluno: MARCELO PAVESI LOPES
Matrícula: 15213120046
Polo: Itaperuna/RJ


Questão 1 (Valor: 5,0) – Sobre a aula 02 –

Leia as passagens abaixo extraídas, respectivamente, dos romances Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antonio de Almeida e Iracema, de José de Alencar e explique como as obras em questão apresentam aspectos importantes do projeto de nacionalidade propagado pelos escritores românticos. Observe ainda o que há de idealizado no encontro cultural apresentado em Iracema.

Texto I:
Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antonio de Almeida Capítulo XVII

D. MARIA
Um dia de procissão foi sempre nesta cidade um dia de grande festa, de lufa-lufa, de movimento e de agitação; e se ainda é hoje o que os nossos leitores bem sabem, na época em que viveram as personagens desta história a coisa subia de ponto; enchiam-se as ruas de povo, especialmente de mulheres de mantilha; armavam-se as casas, penduravam-se às janelas magníficas colchas de seda, de damasco de todas as cores, e armavam-se coretos em quase todos os cantos. É quase tudo o que ainda hoje se pratica, porém em muito maior escala e grandeza, [...]
Nesse tempo as procissões eram multiplicadas, e cada qual buscava ser mais rica e ostentar maior luxo: as da quaresma eram de uma pompa extraordinária, especialmente quando el-rei se dignava acompanhá-las, obrigando toda a corte a fazer outro tanto: a que primava porém entre todas era a chamada procissão dos ourives. Ninguém ficava em casa no dia em que ela saía, ou na rua ou nas casas dos conhecidos e amigos que tinham a ventura de morar em lugar por onde ela passasse, achavam todos meio de vê-la. [...] Alguns haviam tão devotos, que não se contentavam vendo-a uma só vez; andavam de casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, até conseguir vê-la desfilar de princípio a fim duas, quatro e seis vezes, sem o que não se davam por satisfeitos. A causa principal de tudo isto era, supomos nós, além talvez de outras, o levar esta procissão uma coisa que não tinha nenhuma das outras: o leitor há de achá-la sem dúvida extravagante e ridícula; outro tanto nos acontece, mas temos obrigação de referi-la. Queremos falar de um grande rancho chamado das — Baianas, — que caminhava adiante da procissão, atraindo mais ou tanto como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos devotos; era formado esse rancho por um grande número de negras vestidas à moda da província da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dançavam nos intervalos dos Deo-gratias uma dança lá a seu capricho. Para falarmos a verdade, a coisa era curiosa: e se não a empregassem como primeira parte de uma procissão religiosa, certamente seria mais desculpável. Todos conhecem o modo por que se vestem as negras da Bahia; é um dos modos de trajar mais bonito que temos visto, não aconselhamos porém que ninguém o adote; um país em que todas as mulheres usassem desse traje, especialmente se fosse desses abençoados em que elas são alvas e formosas, seria uma terra de perdição e de pecados. Procuremos descrevê-lo.
As chamadas Baianas não usavam de vestido; traziam somente umas poucas de saias presas à cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma finíssima camisa, cuja gola e mangas eram também ornadas de renda; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto, e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal simulando pulseiras. (ALMEIDA, 1978, p. 75 – 76).


TEXTO II:
Iracema, de Jose de Alencar – Capítulo III

Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tigre, afeito às trevas, conheceu Iracema e viu que a seguia um jovem guerreiro, de estranha raça e longes terras.
As tribos tabajaras, d’além Ibiapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como flores de borrasca, e vindos de remota plaga às margens do Mearim. O ancião pensou que fosse um guerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos.
Tranqüilo, esperou.
A virgem aponta para o estrangeiro e diz:
Ele veio, pai.
Veio bem. É Tupã que traz o hóspede à cabana de Araquém. Assim dizendo, o pajé passou o cachimbo ao estrangeiro; e entraram ambos na cabana.
O mancebo sentou-se na rede principal, suspensa no centro da habitação.
Iracema acendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe o resto da caça, a farinha-d’água, os frutos silvestres, os favos de mel e o vinho de caju e ananás.
Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchera na fonte próxima de água fresca para lavar o rosto e as mãos do estrangeiro.
Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho pajé apagou o cachimbo e falou:
Vieste?
Vim, respondeu o desconhecido.
Bem vieste. O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão. (ALENCAR, 1979, p. 14).


Os escritores românticos da primeira geração caracterizaram-se por buscar uma identidade nacional, através da criação escapista de modelos de comportamento. Algo como os aedos faziam, através da oralidade, na Antiga Grécia, esculpindo heróis em palavras e atos memoráveis, de maneira a gerar um sentimento na sociedade, a respeito de como ela deveria ser, criando paradigmas culturais e sociais.
No caso do romantismo brasileiro, emulando o seu coirmão europeu, que buscava a fuga da realidade social no passado da Idade Média, houve um retrocesso ao período inicial da história do Brasil, ou até antes da chegada dos primeiros invasores portugueses, uma vez que não houve Idade Média histórica em nosso país. Fora do mundo ficcional, o processo de colonização brasileiro foi o resultado de um projeto sangrento e brutal de dominação econômica, religiosa e militar, e não uma reunião amigável e diplomática, um bate papo camarada, como temos no texto de José de Alencar, em um trecho do romance Iracema: “O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.”.
Essa visão utópica e idealizada do confronto de culturas e povos na formação do Brasil, realizada nas tintas do romance supracitado, buscava retratar como os autores românticos gostariam que tivesse sido: uma fusão harmônica e cordial entre o branco invasor, dotado de maior força econômica e militar, e os povos ameríndios, dizimados por uma ferocidade poucas vezes testemunhada no percurso da humanidade dentro dos caminhos da história.
Muitas vezes um texto tem revelado suas ideias, mais pelo que ele deixa de citar, do que pelo que consta nas palavras do mesmo. Salta aos olhos o fato desse paradigma romântico produzir, para uma das nossas três raças predominantemente formadoras da genética brasileira, um fenômeno de invisibilidade, como no caso do autor José de Alencar. Ele, simplesmente ignora a presença dos africanos e seus descendentes na sociedade brasileira, mesmo sendo esses, a força motriz da economia brasileira à época, fundamentada nos pilares da agricultura de exportação, no modelo latifundiário, que ainda exibe seus resquícios de poder nos dias de hoje, através das negociatas explícitas da bancada do agronegócio, pelos corredores, salas, e plenários do Congresso Nacional, que uma boa consulta aos jornais e revistas podem corroborar.
Já, Manoel Antônio de Almeida, no texto destacado da obra Memórias de Um Sargento de Milícias, após usar adjetivos grandiloquentes para exaltar a religiosidade de origem europeia, tais como: “magníficas”, “em muito maior escala e grandeza”, “ser mais rica e ostentar maior luxo” e “pompa extraordinária”, passa a execrar a participação dos negros, na cerimônia descrita, não percebendo o caleidoscópio belíssimo do sincretismo religioso e social presente na tela que se apresentava descrita por ele mesmo. No caso: negras chamadas de “Baianas”. Observe o trecho: Todos conhecem o modo por que se vestem as negras da Bahia;… não aconselhamos porém que ninguém o adote”, no qual o autor desaprova a forma com a qual as mesma estão vestidas, como se fosse escolha das dançarinas, e não a sua única opção, pela posição social que ocupavam. Além disso, há uma divertida, porque também dúbia e hesitante, tensão sensual: “um país em que todas as mulheres usassem desse traje,...seria uma terra de perdição e de pecados”, gerando uma contradição entre execração e desejo, que o texto mesmo tentando ocultar, não se furta de revelar em suas entrelinhas. Por fim, e não menos relevante, explicita, de forma lamentável, uma suposta superioridade da beleza genética europeia, através do elogio à cor da epiderme das mulheres do velho continente: especialmente se fosse desses abençoados em que elas são alvas e formosas“. É de estarrecer. O autor diz que país abençoado é o que possui mulheres alvas, quando a beleza humana está permeada em todos os povos, muito além do aprisionamento em padrões estéticos preestabelecidos e impostos culturalmente. No caso do autor, há uma preferência clara pelos padrões europeus na criação de um projeto de identidade nacional, beirando os limites em que essa escolha se transforma em mal disfarçado preconceito.
Apesar dessas incongruências, deve ser destacado por fim, mas não menos importante, o primor dos textos em análise, dotados de um talentoso uso da língua portuguesa para narrar as manifestações ficcionais dos autores, produzindo textos clássicos e históricos de uma época importante de nossa manifestação literária.

Questão 2 (Valor: 5,0) – sobre a aula 04 –

O conceito de interdisciplinaridade (estabelecimento de relações entre duas ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento) é bastante valorizado, no presente como um método relevante para a construção do conhecimento nas mais diversas áreas dos estudos. Ao analisarmos o método críticos de Sílvio Romero concluímos que o estudioso adota uma noção bastante particular de interdisciplinaridade. Tal concepção teve um valor negativo nas formulações de Sílvio Romero, por quê?

O erudito Sílvio Romero, versado em muitas vertentes do conhecimento humano, tais como: “o Positivismo (Auguste Comte e Herbert Spencer - a extrema ordenação social levaria uma determinada comunidade ao progresso), o Evolucionismo (Charles Darwin - a permanência de um ser ou de uma espécie na natureza depende de sua capacidade de resistir e adaptar-se a transformações), o Socialismo Científico (Karl Marx - assevera que a fome do capitalismo irá conduzi-lo “naturalmente” à sua própria destruição, e que a transformação mundial advirá dos trabalhadores explorados) e, fundamentalmente, o Determinismo (Hippolyte Taine - toma fatores diversos da natureza e/ou da sociedade para explicar o caráter humano), além do Naturalismo, que é uma fusão de Evolucionismo e Determinismo, buscando em fatores externos ao homem os condicionantes de sua natureza interna,” não poderia fazer uma análise literária distante das óticas propostas pelas supracitadas ideologias presentes nesse conjunto de conhecimento chamada de Cientificismo. Então, para o crítico supracitado, em meio ao cipoal de novas ideias surgidas no período contemporâneo em que escreveu sua obra máxima, era uma combinação de meio natural, história e componente racial que ditava o tipo de literatura praticada nessas terras brasileiras.
Assim, essa singular interdisciplinaridade foi a principal ferramenta de crítica literária utilizada pelo sergipano ilustre, promovendo uma visão muito peculiar da literatura brasileira até aquele momento histórico.
Ocorre que uma obra literária deve ser medida pela sua literariedade, ou seja, uma miríade de características linguísticas, filosóficas, simbólicas e outras que permitem ser chamado de literário um texto qualquer. A arte pela arte, também é arte, e não a deixou de ser, por não ser engajada ou estar posta como um exercício criativo descompromissado, de puro diletantismo ou expansão da alma humana ante a aspereza da realidade. Essa corrente preconiza que a literatura, como arte, é autônoma, devendo ser criticada pelas suas particularidades específicas de forma e sentido, sem a interferência de disciplinas externas, apenas através de seu texto literário, retratado em um discurso diverso e único.
Sílvio Romero desprezou essa estratégia de crítica literária. Para ele, o que era digno de valor, estava no relacionamento entre a literatura e as outras disciplinas, de modo a auxiliar a constituição de uma percepção ampla do Brasil e suas peculiaridades. Nesse caminho, às vezes, Romero se perdia, falando de muitos assuntos simultâneos, menosprezando o que seria o principal: a literatura.




Do meu ponto de vista, ambos os caminhos, quando radicalizados, podem levar a uma crítica menor e fragmentada, explorando apenas parte do que poderiam. Tanto se equivocam os que colocam a arte na caixa hermeticamente fechada de uma manifestação artística pura e simples, e a analisam apenas pelas suas regras de literariedade, seus instrumentos e ferramentas básicas usadas na construção de um texto que possa ganhar o título de literário; quanto são equivocados os outros que focam mais na expansão da manifestação de literatura de forma centrífuga ao seu âmago artístico, levando-a a paragens de outras disciplinas, quando sem a devida temperança e prudência em suas visões, ampliando em demasia a análise, em uma prolixidade que acaba ocultando o principal objeto da crítica: a própria literatura. Ambos falham, porque a arte da construção de discursos textuais é tudo isso ao mesmo tempo: é arte, é manifestação, é influência para fora do campo da literatura, é transformação de realidade externa pela transformação das ideias, é expansão da alma humana, está imersa no meio natural, na história, na sociedade e na vida. Cabe ao crítico, entender as nuances diversas da obra literária, e saber qual a amplitude da lupa que usa em seu ofício analítico.

Teoria da Literatura I - AD1

Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro
Universidade Federal Fluminense
Curso de Licenciatura em Letras- UFF / CEDERJ
Disciplina: Teoria da Literatura 1
Coordenador: José Luís Jobim
AD 1 - 2016/ 1

Aluno(a): MARCELO PAVESI LOPES
Polo: Itaperuna – RJ Matrícula: 15213120046
Nota: 10,0

1. Leia, a seguir, as frases que sintetizam opiniões sobre o que é literatura para
o senso comum:

1. Literatura são textos escritos com uma linguagem embelezada.

2. Literatura é tudo o que está escrito.

3. Literatura é um texto completo escrito com uma língua qualquer
(português, espanhol, inglês, francês etc.)

4. Literatura consiste em fazer arte com as palavras.

5. Literatura é a criação de novas possibilidades de uso da palavra.

6. Literatura é o conjunto de textos escritos para o autor comunicar com
suas palavras alguma coisa ao leitor.

Baseado no que você já tinha em sua cabeça e no que aprendeu nas duas primeiras
aulas, comente pelo menos duas das frases acima. Coloque o número da frase
comentada.

1. Número da frase: 1 - Comentário: Conceituar significa separar alguma coisa de um conjunto, devido a singularidades que esse objeto possui. Assim, é preciso em primeiro lugar, fazer escolhas de características componentes do observado. Quando o senso comum anexa ao conceito de literário ao particular e próprio de cada um conceito de beleza, não se presta a definir o que é literário. Mais confunde que explica. Beleza é uma eleição do que é agradável no campo do gosto e não gosto. Portanto, variável de ser humano para ser humano. Há quem goste de jiló, por exemplo. Conectar o conceito de belo ao da literatura, pode ser aceito no senso comum, mas na produção de um trabalho crítico, devemos estar atentos às nossas inclinações pessoais, de modo que as mesmas não venham a diminuir o trabalho de formação conceitual a respeito da literariedade de um determinado texto.

2. Número da frase: 2 - Comentário: Toda frase formada é produto da criatividade humana, através da capacidade da linguagem. Toda frase construída é como um projeto: única, tem princípio e fim determinados. Porém, não significa que toda frase seja literária. Se dissermos que tudo que está escrito é literário, estamos levando o conceito de literariedade a uma amplitude tal, que aproximaremos literatura (litteratura) e escrita (litterae = letras), fundindo dois parâmetros que se diferenciam pelo uso de ferramentas da língua para a produção textual, no qual desconsideraríamos a proeminência dos conceitos distintos de modelo (da utilidade das lições de um determinado texto) e de exemplo (quando na produção de um texto, são usados com maestria, os instrumentos disponíveis à construção da comunicação por escrito).


2. Considerando tudo o que você aprendeu na aula 3, diga quais foram os dois mais importantes aspectos sobre a relação entre literatura e linguagem, na sua opinião.
Justifique sua resposta.

Primeiro: O conceito de que na literatura prevalece a função poética da linguagem (segundo Jakobson), sendo que as outras funções aparecem, porém de forma subalterna, enquanto no uso cotidiano da linguagem estão presentes todas as funções, que são: referencial, emotiva, conativa, poética, fática e metalinguística. Ora, Jakobson atribuiu à função poética, diversas singularidades proeminentes: “campo onde descobriu e estudou os mais importantes princípios da linguística estrutural: a autonomia da linguagem, o caráter estrutural acentuado da linguagem (a interdependência do todo e das partes), o papel da percepção ou da orientação, a interdependência de som e sentido das estruturas prosódicas (métrica) e gramatical, os dois eixos da linguagem, a multiplicidade das funções linguísticas”, sendo assim uma das funções mais grandiosas da comunicação, conferindo à literatura, todas essas propriedades supracitadas, pela predominância que a função poética possui nos textos literários.

Segundo: A percepção de que, enquanto a linguagem de uso cotidiano se esgota no próprio e imediato pronunciamento, limitando-se à situação que exigiu o pronunciamento de determinada frase, a literatura consegue transpor de forma assimétrica o espaço e o tempo, com autor e leitor em lugares e momentos diferentes, perpetuando-se no tempo e no leitor, com a mensagem permanecendo na obra, permitindo a sua ação de forma contínua, nos diversos leitores que a reinterpretarão e comentarão. Isso confere ao texto literário um imenso poder, maior que o da linguagem de uso cotidiano.


3. Formule, em suas próprias palavras, um sentido para cada um dos termos abaixo:

FICÇÃO: É uma capacidade humana, exclusivamente humana, de espelhar o exterior que nos rodeia. Exercer o poder criador da ficção é emoldurar uma paisagem que tenha verossimilhança com o mundo real, uma versão em palavras da realidade que nos absorve. Baseados nessa realidade crua daquilo que entendemos ser, elaboramos um cozimento de paradigmas do que imaginamos que seja ou do que haveria possibilidade de ser. Assim, com esse clone algo impreciso do mundo, das pessoas e das coisas, poderíamos ter, por analogia, um melhor entendimento do representado, o universo exterior a nós, através do ficcional representante.

REALISMO: Foi um movimento cultural, do século XIX, que buscou aproximar o melhor possível a obra ficcional do mundo real, baseado num estilo de escrever que buscava descrever pormenores da realidade, de modo a gerar uma sensação de proximidade entre o ficcional e o mundo real. Baseado num conceito dúbio de que a linguagem seria diáfana, um véu translúcido como ponte para esse real. Essa visão utópica da poder criativo da linguagem literária é, atualmente, questionado com veemência, em virtude do fato explícito a respeito da impossibilidade da linguagem representar fielmente a lúdica e dinâmica transformação incessante do mundo em sua tempo-espacial dimensão de vir-a-ser, como se referia a esse fenômeno o filósofo Heráclito de Éfeso.

REFERÊNCIA: Pode ser entendido como um medidor do grau de realismo de um texto, pois trata-se da inserção no mundo da ficção de nomes de lugares e personagens, espécies da fauna e da flora, acontecimentos históricos ou de ampla repercussão social, objetos móveis e imóveis: todos pertencentes ao mundo real, de modo a criar uma intimidade entre as polaridades ficção/realidade, gerando uma sensação de realismo para o leitor do texto literário.


4. No ano de sua publicação em livro, as Memórias Póstumas de Brás Cubas receberam uma variedade de críticas. Houve, como seria de se esperar em relação a um autor que também escrevia regularmente em jornais e revistas, observações protocolares como a publicada na Gazetinha, em 12 de dezembro de 1881: “Recebemos e agradecemos um exemplar do notável romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, sobre o qual daremos qualquer dia destes um folhetim”. (GUIMARÃES, 2004, 346) Mas mesmo as observações protocolares às vezes incluíam uma certa interrogação relativa àquele texto, que aparentava ter, além do que se supunha ser mais familiar para a época, alguma coisa mais. Talvez seja por isso que, mesmo antes da publicação em livro, Raul Pompéia, na Revista Ilustrada, em abril de 1880, declara sobre o romance: “É ligeiro, alegre, espirituoso, é mesmo mais alguma cousa” (apud Guimarães, 2004, p. 345).
Capistrano de Abreu, em 1881, parece retomar a fala de Pompéia, considerando que há “alguma cousa” mais naquela obra, e questionando até mesmo o enquadramento das Memórias como romance: “As Memórias póstumas de Brás Cubas serão um romance? Em todo o caso são mais alguma cousa” (apud Guimarães, 2004, p. 347).
Tendo em vista as informações acima, escolha uma das afirmativas abaixo e faça um comentário sobre como esta afirmativa pode ser relacionada às informações acima:

a. A obra literária é privilegiada porque tem condição de manter-se tal qual era materialmente no passado, inscrevendo-se todavia no presente, o que não é possível para uma série de outras manifestações históricas.

b. No entanto, devemos estar atentos para o fato de que o sentido da obra não será o mesmo para os vários e sucessivos públicos leitores, de modo que, mesmo considerando que a obra materialmente pode ser a mesma, ela poderá significar coisas diferentes.

c. Nossa leitura hoje se dá em um momento, em que outras questões já foram formuladas, reflexões já foram feitas, opiniões já foram emitidas.

Escolhida: No entanto, devemos estar atentos para o fato de que o sentido da obra não será o mesmo para os vários e sucessivos públicos leitores, de modo que, mesmo considerando que a obra materialmente pode ser a mesma, ela poderá significar coisas diferentes.


Em 1881, o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi lançado, mas ainda não se sabia, e nem se poderia saber à época, e depois classificado como o marco inicial do Realismo no Brasil. Algumas frases no texto, relativas aos críticos imediatos e contemporâneos da obra, sugerem que eles inferiam que a mesma seria dotada de algo novo: “...é mesmo mais alguma cousa”, ou “há “alguma cousa” mais naquela obra”, ou ainda “serão um romance?”, mesmo sem saber definir que algo novo seria. Apesar desse aspecto da sensibilidade literário comum, devemos destacar que a mesma obra, no decorrer do tempo, além de sentido inicial, vai agregando julgamentos e considerações sobre si, à medida que os olhos de diversos tipos de leitores vão passando sobre o texto, e também, não menos importante, à medida que o tempo vai passando, a perspectiva permite uma análise diferente daquela do ano de seu lançamento, podendo hoje em dia, ser classificada como um marco inicial do movimento literário denominado Realismo, em terras brasileiras. A obra é a mesma, mas os instrumentos interpretativos variam entre os públicos leitores, premidos por questões culturais, psicológicas, sociais e históricas. Assim, as mesmas palavras de Machado de Assis assumem diversos significados, variando de acordo com aqueles que fazem despertar das palavras deitadas no texto, através da capacidade interpretativa que são possuidores (seria uma “hermenêutica literária”?), caminhos díspares e variados sentidos, muitas vezes divergentes ou apenas diferentes.